As acções militares levadas a cabo pelos Estados Unidos na Venezuela, no sábado, desencadearam uma onda imediata de reacções internacionais, com fortes críticas de vários países e organizações multilaterais, que alertam para um “precedente extremamente perigoso”, mas também manifestações de apoio, sobretudo por parte de governos alinhados com Washington.
Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha emitiram um comunicado conjunto no qual classificam a intervenção americana como “um precedente extremamente perigoso para a paz e a segurança regional”, advertindo para os riscos que representa para a população civil. No mesmo documento, os países manifestam preocupação com tentativas de controlo governamental e de apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos, considerando-as incompatíveis com o direito internacional.
As críticas estenderam-se às redes sociais. O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou na rede social X que os bombardeamentos e a captura de Nicolás Maduro “ultrapassam uma linha inaceitável”, defendendo uma resposta “vigorosa” nas Nações Unidas. Já o Presidente da Colômbia, Gustavo Petro, declarou que o seu governo “repudia a agressão à soberania da Venezuela”.
A tensão aumentou quando o antigo Presidente norte-americano Donald Trump afirmou que “soava bem” uma operação militar contra a Colômbia. Petro reagiu dizendo que, “pela pátria”, voltaria a pegar em armas se necessário e apelou ao povo colombiano para defender o Presidente “contra qualquer acto violento ilegítimo”.
Entre as grandes potências, China e Rússia assumiram posições de condenação inequívoca. Pequim afirmou estar “profundamente chocada” e condenou “veementemente” as acções americanas, classificando-as como “hegemónicas” e uma violação da soberania venezuelana e do direito internacional. Moscovo, que considera Nicolás Maduro um Presidente legitimamente eleito, denunciou uma “agressão armada” dos Estados Unidos, lamentando que “a animosidade ideológica tenha prevalecido sobre o envolvimento pragmático” e apelando ao diálogo.
Também África do Sul condenou a intervenção, considerando-a “uma clara violação da Carta das Nações Unidas”. O representante sul-africano junto da ONU afirmou que “nenhuma nação pode declarar-se legalmente superior a outra”. A União Africana, que integra 55 Estados-membros, reiterou a sua solidariedade com o povo venezuelano e defendeu que os desafios do país “só podem ter uma resposta sustentável através de um diálogo político inclusivo entre venezuelanos”.
Em sentido contrário, alguns governos manifestaram apoio à acção norte-americana. A Argentina, através de um comunicado do ministro dos Negócios Estrangeiros, Pablo Quirno, afirmou que valoriza a “decisão e determinação” do Presidente dos EUA, considerando que as acções representam “um avanço decisivo contra o narcoterrorismo”. O Paraguai adoptou uma linguagem semelhante, identificando Maduro como “cabecilha do Cartel de los Soles” e classificando a sua permanência no poder como uma ameaça para a região.
Na Europa, predominou uma postura cautelosa. A União Europeia, num comunicado assinado por todos os Estados-membros com excepção da Hungria, apelou a uma solução pacífica para a crise e ao respeito pelo direito internacional, reiterando que não reconhece legitimidade à presidência de Nicolás Maduro.
Ainda assim, surgiram divergências. O chanceler alemão, Friedrich Merz, considerou que a avaliação legal da intervenção americana “é complexa”. Em França, o ministro dos Negócios Estrangeiros condenou a operação por violar o princípio da não utilização da força, enquanto o Presidente Emmanuel Macron afirmou inicialmente que o povo venezuelano “só pode regozijar-se” com a saída de Maduro, vindo mais tarde a esclarecer que França “não apoiou nem aprovou” o método utilizado. Em Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez foi mais contundente, afirmando que o país não reconhece o regime de Maduro, mas também não reconhecerá “uma intervenção que viola o direito internacional e empurra a região para um horizonte de incerteza e bélico”.
Fora da União Europeia, o Reino Unido remeteu explicações para Washington. “Cabe aos EUA justificar a acção que tomaram. Não é claro. É complicado”, afirmou o primeiro-ministro Keir Starmer, sublinhando, ainda assim, que Londres apoia há muito uma transição de poder na Venezuela.
Na América Latina, as reacções também revelam divisões internas. No Chile, o Presidente cessante Gabriel Boric condenou a intervenção americana e apelou a uma saída pacífica para a crise, enquanto o Presidente eleito, José Antonio Kast, classificou a detenção de Nicolás Maduro como “uma grande notícia para a região”.
O Panamá, apesar do seu historial de intervenção militar norte-americana, evitou críticas directas aos Estados Unidos, reafirmando o seu compromisso com a democracia e defendendo que a transferência de poder na Venezuela deve respeitar “a vontade soberana do povo venezuelano”.