O presidente Donald Trump propôs pagar um “dividendo das tarifas” de 2.000 dólares a cada americano, alegando que as tarifas sobre importações estão a gerar receitas suficientes, mas os especialistas alertam que a medida enfrenta obstáculos legais e orçamentais.
O presidente Donald Trump afirmou que as suas tarifas protegem a indústria americana, atraem fábricas para os Estados Unidos, aumentam as receitas do governo federal e dão-lhe poder de negociação diplomática. Agora garante que as tarifas podem também financiar um benefício directo para as famílias: um generoso “dividendo das tarifas”.
A ideia foi proposta na rede social Truth Social, cinco dias depois de o Partido Republicano ter perdido eleições na Virgínia, Nova Jérsia e outros estados, em grande parte devido ao descontentamento dos eleitores com a gestão económica de Trump – especialmente o elevado custo de vida.
Segundo o presidente, as tarifas estão a gerar receitas suficientes para que “um dividendo de pelo menos 2.000 dólares por pessoa (excepto para os rendimentos mais elevados!) seja pago a todos”.
Especialistas em orçamento mostraram-se cépticos em relação à proposta, que recorda o efémero plano da administração Trump de cheques DOGE financiados por cortes orçamentais federais sugeridos pelo bilionário Elon Musk.
“Os números simplesmente não batem”, afirmou Erica York, vice-presidente de política fiscal federal da Fundação Fiscal (Tax Foundation). Detalhes sobre os limites de rendimento ou se as crianças receberiam o pagamento ainda não foram divulgados.
Até mesmo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, parecia surpreendido. Em entrevista ao programa “This Week”, da ABC, Bessent disse não ter discutido o dividendo com o presidente e sugeriu que o pagamento poderia não ser feito directamente em cheques, mas sim através de cortes fiscais.
As tarifas estão de facto a gerar receitas – 195 mil milhões de dólares no ano fiscal terminado a 30 de setembro, um aumento de 153% em relação aos 77 mil milhões de 2024 -, mas ainda representam menos de 4% das receitas federais e pouco contribuem para reduzir o défice, que atinge 1,8 mil milhões de dólares em 2025.
Para especialistas em orçamento, a matemática do dividendo de Trump não está correcta. John Ricco, do Budget Lab da Universidade de Yale, estima que as tarifas gerem entre 200 e 300 mil milhões de dólares por ano. No entanto, um dividendo de 2.000 dólares para todos os americanos, incluindo crianças, custaria cerca de 600 mil milhões. “É claro que as receitas não seriam suficientes”, afirmou. Ricco acrescenta que o pagamento exigiria aprovação do Congresso, não podendo o Presidente fazê-lo sozinho.
Além disso, a medida central da política comercial proteccionista de Trump – impostos de dois dígitos sobre importações de quase todos os países – enfrenta um desafio judicial na Suprema Corte dos EUA. Na semana passada, os juízes mostraram-se cépticos em relação à alegação da administração de Trump de poderes para declarar emergência nacional e justificar as tarifas. Caso as tarifas sejam derrubadas, a administração poderá ter de reembolsar os importadores, em vez de pagar dividendos às famílias.
Economistas e analistas orçamentais salientam que as tarifas são pagas pelos importadores, que geralmente repassam o custo aos consumidores através de preços mais altos. “O plano do dividendo falha no objetivo”, concluiu Erica York. “Se o objetivo é aliviar os americanos, basta eliminar as tarifas.”