Portugal sofreu, mas venceu: Cristiano Ronaldo marcou o primeiro golo da carreira numa fase a eliminar de um Mundial, foi surpreendentemente substituído aos 81 minutos e viu Gonçalo Ramos decidir o jogo com um cabeceamento nos instantes finais, na victória por 2-1 sobre a Croácia, em Toronto, que pode ter marcado o fim da carreira em mundiais de Luka Modric.
Horas antes, a Espanha tinha feito a exibição mais completa do torneio até agora, ao golear a Áustria por 3-0 em Los Angeles, naquele que Luis de la Fuente considerou “a base para o que vem a seguir”. A Suíça completou o dia europeu com um triunfo por 2-0 sobre a Argélia, em Vancouver.
Ronaldo marca, sai emocionado, Ramos decide
Aos 41 anos e no sexto Mundial da carreira, Cristiano Ronaldo marcou finalmente o primeiro golo numa fase a eliminar da competição — de grande penalidade, depois de lhe terem anulado um golo por fora de jogo apertado. Foi o golo do empate português, mas não chegou para evitar sustos: a Croácia, apesar de também ter visto dois golos anulados, chegou a balançar a baliza de Diogo Costa já em tempo de compensação, num lance que só uma revisão no VAR acabou por confirmar como irregular.
O momento mais surpreendente da noite, porém, foi a decisão do selecionador Roberto Martínez de substituir Ronaldo aos 81 minutos, dando entrada a Rúben Neves, numa opção que o próprio jogador terá recebido com alguma confusão em campo. A aposta valeu a pena: Gonçalo Ramos, reforço recorde de sempre do Milan, apareceu para cabecear para a vitória um cruzamento de Rafael Leão, naquele que pode ser um prenúncio do que aí vem sob o comando de Rúben Amorim no clube italiano na próxima época. “Quando precisam de um golo tardio, podem chamar o Gonçalo Ramos”, brincou o próprio avançado após o jogo.
Para a Croácia, e para Modric em particular, pode ter sido a despedida de um Mundial. “Este foi provavelmente o seu último Mundial”, disse o selecionador croata, Zlatko Dalic. “E lamento que tenha terminado assim, com uma derrota. O Lukajogou na segunda parte e voltou a ser um dos nossos jogadores-chave. Custa-me muito que tenha acabado desta forma. Mostrou a sua qualidade e o seu carácter, e liderou a Croácia até ao fim.” Modric, hoje no Milan, conquistou a Bola de Ouro depois de ter guiado a Croácia à final de 2018 e, quatro anos mais tarde, às meias-finais do Qatar, à frente de um país com menos de quatro milhões de habitantes.
A noite teve ainda uma nota emotiva para Ronaldo: o jogo coincidiu com o aniversário da morte de Diogo Jota e do irmão, André Silva, num acidente de viação. Depois do apito final, Ronaldo vestiu a antiga camisola número 21 de Jota, visivelmente emocionado, antes de a tirar e erguê-la para uma fotografia de equipa. “Sabíamos disso antes do jogo. Foi um momento muito especial. Falámos sobre isso hoje, o grupo. A coincidência da vida. Fiquei impressionado, porque a situação de hoje significa muito para nós”, disse à Fox.
Espanha impõe-se sem sofrer um remate à baliza
A Espanha não permitiu um único remate enquadrado à Áustria e teve 65% de posse de bola na vitória por 3-0 em SoFi Stadium, naquela que foi, para muitos, a exibição mais completa do Mundial até agora — porventura superior a algumas das combinações do ataque francês. Mikel Oyarzabal, que continua ao serviço da Real Sociedad mesmo depois de ter marcado o golo decisivo da final do Europeu de 2024 frente à Inglaterra, chegou aos quatro golos na corrida à Bota de Ouro do torneio.
O triunfo mantém Luis de la Fuente invicto em jogos a eliminar em grandes competições e reforça a ideia de que a Espanha está a crescer no Mundial — surgindo, mais do que os próprios Estados Unidos, como a candidata mais capaz de travar a França caso as duas cheguem às meias-finais. “A melhor forma de defender contra a França é ter a bola e não deixar a França jogar com ela. Só algumas equipas conseguem fazer isso. Podem ser a Espanha, pode ser a Argentina. Equipas capazes de manter posses de bola longas contra eles”, disse à The Athletic o antigo internacional argentino Pablo Zabaleta, hoje membro do Study Group da FIFA. Vale recordar que a Espanha, depois de vencer o Europeu de 2008, viria a conquistar o Mundial de 2010 — e o golo de Oyarzabal foi, coincidentemente, o primeiro da Espanha numa fase a eliminar deste torneio desde a célebre homenagem de Andrés Iniesta a Dani Jarque, na final de 2010 em Joanesburgo.
Suíça vence com Manzambi em destaque
A Suíça tornou-se a terceira seleção europeia a avançar nos jogos de quinta-feira, ao vencer a Argélia por 2-0 em Vancouver, com golos de Breel Embolo e Dan Ndoye logo no início de cada parte. Uma das revelações do torneio, o médio de 20 anos JohanManzambi — utilizado mais aberto no ataque suíço por Granit Xhaka e Remo Freuler dominarem o meio-campo — assistiu para o primeiro golo depois de deixar um defensor para trás dentro da área. Já soma dois golos e uma assistência na competição e é hoje um dos jovens mais cobiçados do Mundial, a par do marroquino Ayyoub Bouaddi. Os suíços defrontam, a 7 de julho, o vencedor do duelo entre Colômbia e Gana.
O que esperar de sexta-feira
O dia reserva o regresso de Lionel Messi a casa: pela primeira vez neste Mundial, a Argentina joga em Miami, frente a Cabo Verde, a revelação do torneio até aqui. É também o jogo número 100 de Lionel Scaloni como selecionador albiceleste — mais do que Bilardo ou Menotti conseguiram no cargo. No Egito, a fisionomia de Mohamed Salah é a grande incógnita antes do duelo com a Austrália em Kansas City, depois de o avançado ter saído lesionado (problemas musculares) do último jogo da fase de grupos. A fechar o dia, Colômbia e Gana medem forças em Dallas, com o selecionador colombiano Nestor Lorenzo a brincar, a propósito de um golo anulado por fora de jogo do dedo do pé, que da próxima vez vai pedir a Davinson Sánchez “para fazer uma pedicura”.