Nos últimos quatro anos, o presidente russo, Vladimir Putin, transformou a guerra contra a Ucrânia no eixo central de todas as suas decisões políticas e militares. Esta estratégia permitiu à Rússia recuperar terreno após uma invasão inicialmente desastrosa e impor condições em negociações de paz mediadas pelos Estados Unidos.
Contudo, a persistência de Putin no conflito tem tido um custo elevado: estima-se que até 1,2 milhão de russos tenham sido mortos ou feridos, enquanto a economia e a sociedade do país sofrem alterações profundas que ameaçam o seu futuro.
Alexandra Prokopenko, antiga responsável do banco central russo, aponta que grande parte dos recursos do Estado tem sido canalizada para “tanques, bombas e benefícios militares, sem valor duradouro ou contributo para o desenvolvimento do país”.
Antes mesmo da guerra, a Rússia enfrentava desafios económicos e demográficos. A economia, dependente da extração de recursos naturais, mostrava sinais de estagnação, a população diminuía devido a uma baixa taxa de natalidade pós-soviética, e as liberdades individuais estavam a ser restringidas por um autoritarismo crescente.
A invasão em larga escala iniciada a 24 de Fevereiro de 2022 agravou estes problemas e impôs novos desafios, incluindo a militarização da sociedade e o redirecionamento de vastos recursos estatais para o esforço de guerra. Actualmente, cerca de 40% do orçamento federal russo destina-se às forças armadas e à segurança, e 9% é usado no pagamento de juros da dívida contraída para financiar o conflito.
O Fundo Nacional de Riqueza, criado por Putin com receitas de petróleo e gás, viu as suas reservas líquidas cair de 113 mil milhões de dólares antes da guerra para 55 mil milhões em Fevereiro de 2026.
Enquanto potências como a China e os Estados Unidos investem em inteligência artificial e tecnologias de ponta, a Rússia concentrou-se em armamento. O país aparece nas classificações globais de inovação em A.I. como um retardatário.
Além do impacto financeiro, a guerra deteriorou os laços com o Ocidente, afastou investidores estrangeiros e travou o investimento doméstico, em grande parte devido a taxas de juro elevadas e ao elevado gasto militar.
O conflito também intensificou a crise demográfica russa. Segundo o Center for Strategic and International Studies, citado pelo The New York Times, cerca de 325 mil soldados russos morreram, e projeções pessimistas indicam que a população do país poderá cair para menos de 100 milhões até 2100, face aos 145 milhões pré-guerra.
O êxodo de cérebros é outro efeito visível: centenas de milhares de russos fugiram do país, enquanto o Kremlin reprime a dissidência através de poderes legais de guerra. Desde o início do conflito, pelo menos 4.029 pessoas foram alvo de processos políticos, segundo a organização de direitos humanos Political Prisoners Memorial.
A guerra também pesa sobre a geração mais jovem. Uma sondagem da start-up russa Chronicles revelou que 59% dos russos entre 18 e 29 anos apoiariam uma retirada da Ucrânia sem que os objectivos de Putin fossem alcançados, face a 42% da população total.
Especialistas apontam que Putin não apresentou uma visão de longo prazo para o país, focando-se apenas em recuperar o poder sobre territórios que outrora controlou.
O elevado gasto militar nos primeiros três anos da guerra criou um boom económico temporário, contrariando expectativas ocidentais de colapso com as sanções. Agora, a economia começa a sofrer com cortes de despesa pública, queda das receitas de petróleo e gás e pressões no mercado laboral.
A dependência crescente da China como compradora de petróleo e fornecedora de tecnologia, aliada à necessidade de negociar com os Estados Unidos para um eventual acordo de paz, evidencia a vulnerabilidade de Moscovo e a erosão da influência russa no mundo. Mesmo com uma eventual retoma das relações económicas internacionais, reverter a economia de guerra construída durante o conflito será um desafio complexo e demorado.