Numa intervenção no segundo dia da 56.ª edição do Fórum, antes da intervenção do Presidente dos Estados Unidos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez um discurso marcante de que Trump não gostou, mas que o mundo não se cansa de elogiar.
“Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima. Esta ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou-nos a ter acesso a rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança colectiva, e apoiou organismos que se ocupariam da resolução de conflitos. (…) Este acordo já não funciona. Deixem-me ser directo: estamos a meio de uma ruptura, não de uma transição. Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas finanças, saúde, energia e geopolítica revelou os riscos da integração global”, disse Carney.
O discurso que, dizem muito analistas, vai resistir ao tempo e ficar para a história, também porque Carney foi à História buscar Tucídides e Václav Havel, para discorrer sobre os dias de hoje. Carney – antigo governador do Banco do Canadá e do Banco de Inglaterra, que trabalhou 13 anos na Goldman Sachs, formado em Harvard com um doutoramento em Oxford – conhece como poucos “a velha ordem mundial”, que acabou.
“Parem de invocar a ‘ordem internacional baseada em regras’ como se ainda funcionasse conforme anunciado. Chamem ao sistema o que ele é: um período de intensificação de rivalidade entre grandes potências, onde os mais poderosos prosseguem os seus interesses usando a integração económica como arma de coerção”, disse ainda Carney em Davos.
Os Estados Unidos, China e Rússia são os três grandes poderes e as potências médias, como o Canadá, tem de encontrar um novo caminho. “A velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é uma estratégia. Mas a partir da fratura, podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo. Esta é a tarefa dos poderes médios, que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com um mundo de cooperação genuína. Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo, a capacidade de parar de fingir, de dizer as coisas como são, de construir a nossa força em nossa casa e de agir em conjunto”, concluiu Carney.
Dias antes de viajar para Davos, o primeiro-ministro do Canadá concluiu “novas parcerias estratégicas com a China e o Catar”.
O mundo gosto do discurso, que tem vindo a ser replicado pelos media, mas Donald Trump nem por isso. “O Canadá existe por causa dos Estados Unidos. Lembra-te disso, Mark, na próxima vez que fizeres as tuas declarações”, avisou o presidente norte-americano.