O presidente da Reserva Federal norte-americana avisou que a inteligência artificial vai começar por acelerar a procura e só depois trazer os ganhos de produtividade do lado da oferta. Para os bancos centrais, isso significa uma transição “acidentada”.
O presidente da Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos, Kevin Warsh, defendeu esta sexta-feira que a inteligência artificial (IA) vai mudar fundamentalmente a forma como a Fed e os outros bancos centrais conduzem a política monetária. Warsh considera que, numa primeira fase, a tecnologia vai sobretudo impulsionar a procura e só mais tarde produzirá todos os ganhos de produtividade do lado da oferta.
O responsável falou em Banguecoque, nas Reuniões Anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, numa conversa com a directora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, perante uma sala cheia.
Warsh classificou a IA como “provavelmente a mudança mais importante na economia dos EUA e na economia mundial” da sua vida. Defendeu que os banqueiros centrais devem analisá-la tanto pelo lado da procura agregada como pelo da oferta. No médio e longo prazo, disse acreditar “fundamentalmente” que a IA será um choque positivo do lado da oferta, capaz de elevar a produtividade. Por agora, o efeito mais visível é outro: uma onda de investimento privado em infraestruturas, equipamentos e centros de dados está a fazer crescer a procura e a criar pressões sobre os preços antes de os ganhos de produtividade se materializarem. Para Warsh, os bancos centrais têm de tratar esse primeiro impacto como um choque.
O presidente da Fed admitiu que a transição será “acidentada”. Disse ainda que há muita incerteza sobre o impacto da IA no emprego nos próximos 12 a 18 meses, sobre a futura estrutura dos mercados e sobre quais as empresas que acabarão por beneficiar.
Menos “tortura” dos dados
A IA também vai mudar o trabalho interno dos bancos centrais. Warsh criticou a abordagem tradicional, que assenta em estatísticas oficiais atrasadas e em modelos antiquados, e disse que os economistas passam o tempo a “torturar os dados”. Com informação em tempo real e novas ferramentas de análise, os decisores poderão “olhar pela janela” e ver a economia com maior clareza, separando os sinais actuais do ruído e dos erros de medição. “Não falta muito para que deixe de ser tortura”, afirmou.
Para estudar estas mudanças, a Fed criou cinco grupos de trabalho externos. Entre eles estão grupos dedicados à produtividade e ao emprego e à recolha de dados. O grupo sobre produtividade e emprego realiza a primeira audição pública a 16 de Novembro, na região da baía de São Francisco.
Sem pistas sobre os juros
Questionado sobre as próximas decisões de política monetária, Warsh recusou dar sinais. “Não faço pré-julgamentos das reuniões”, disse. Recordou que a Fed retirou em Setembro “uma dose de acomodação” e garantiu que continua empenhada em restabelecer a estabilidade de preços. Antes das reuniões de Outubro e Dezembro, a Fed vai avaliar a evolução da actividade, do emprego e da inflação.
Warsh descreveu a inflação persistente como um desafio comum a vários países e disse ter ouvido dos seus homólogos “determinação” para garantir a estabilidade de preços. Considerou positivo que a maioria dos bancos centrais esteja a apertar a política monetária ao mesmo tempo, cada um dentro do seu mandato, porque assim “não há boleias”. Disse também que a economia mundial se tem mostrado mais robusta do que esperava “há cinco ou seis meses”, apesar das tensões geopolíticas.
Esta sexta-feira foi o 148.º dia de Kevin Warsh como presidente da Fed.