Os preços mundiais dos produtos alimentares voltaram a cair em Novembro, segundo o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), abrindo margem para algum alívio nas economias africanas mais pressionadas pela inflação alimentar. A descida foi puxada pela redução das cotações internacionais de quase todos os principais produtos básicos, com excepção dos cereais.
O índice global de preços alimentares da FAO situou-se em 125,1 pontos, uma descida de 1,2% face a Outubro e 2,1% abaixo do registado em Novembro de 2024. O valor mantém a tendência de recuo dos últimos três meses e encontra-se agora 21,9% abaixo do pico histórico de Março de 2022, atingido após a eclosão da guerra na Ucrânia.
Apesar da queda geral, o índice de preços dos cereais aumentou 1,3%, resultado das hostilidades persistentes na região do Mar Negro e da previsão de uma redução das plantações de trigo na Rússia para a colheita de 2026. A subida dos preços do milho, impulsionada pela forte procura brasileira, também contribuiu para esta pressão.
Para África, onde muitos países dependem fortemente das importações de trigo e milho, estas variações continuam a ser motivo de preocupação. Mercados como Egito, Sudão, Nigéria, Etiópia e vários Estados africanos da SADC permanecem expostos a choques externos que influenciam diretamente a inflação interna.
Em contraste, os preços internacionais do arroz recuaram, reflexo de uma procura mais moderada, um sinal positivo para países africanos com forte consumo do cereal e que enfrentaram pressões durante o ano devido às restrições de exportação impostas anteriormente pela Índia.
O índice dos óleos vegetais caiu 2,6%, devido à descida nas cotações do óleo de palma, colza e girassol – matérias-primas decisivas para mercados africanos que dependem largamente de importações da Ásia. A queda poderá traduzir-se em preços mais estáveis para produtos de cozinha, um dos componentes mais sensíveis dos cabazes alimentares africanos.
Os preços da carne caíram 0,8%, com destaque para a carne de aves, cuja maior oferta exportável, em parte liderada pelo Brasil, intensifica a concorrência global. Para mercados africanos fortemente abastecidos por importações brasileiras, como Angola, Congo, Senegal e Gana, esta tendência pode limitar novos aumentos internos.
Os lacticínios recuaram 3,1%, influenciados pela queda da manteiga e do leite em pó integral, produtos essenciais para várias indústrias alimentares no continente.
O açúcar registou a maior descida mensal (5,9%) apoiado por previsões de produção robusta no Brasil, Índia e Tailândia. Para países africanos importadores líquidos deste produto, como Angola, Cabo Verde e Moçambique, esta tendência poderá contribuir para reduzir a pressão sobre os preços de bens transformados.
A FAO prevê ainda que a produção mundial de cereais em 2025 ultrapasse pela primeira vez a barreira dos três mil milhões de toneladas, impulsionada por colheitas de trigo superiores ao esperado, sobretudo na Argentina. Se confirmada, esta expansão pode ajudar a estabilizar os mercados globais – embora o impacto em África dependa dos custos logísticos, da disponibilidade de divisas e das dinâmicas políticas regionais.
A queda global dos preços alimentares oferece algum respiro aos consumidores africanos, que enfrentaram nos últimos anos uma combinação de choques externos, desvalorização cambial e custos de transporte elevados.
Contudo, a dependência estrutural das importações, as vulnerabilidades climáticas e a volatilidade geopolítica continuam a colocar o continente numa posição frágil. Para muitos países africanos, o alívio das estatísticas internacionais só se traduzirá em preços internos mais baixos quando forem resolvidos os desafios logísticos, cambiais e de produção local.
Ainda assim, o relatório da FAO traz um sinal positivo para o fim do ano: a pressão global está a diminuir, e isso pode finalmente abrir espaço para alguma estabilidade nos mercados africanos.