Os candidatos à Presidência do Brasil aproveitaram repetidamente as intervenções para se atacarem mutuamente e tentarem ganhar vantagem para a segunda volta das eleições, no próximo domingo.
O primeiro frente-a-frente entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, transmitido no domingo à noite pela televisão Band, ficou marcado por acusações de corrupção, ataques a familiares e interrupções constantes, que obrigaram o moderador a intervir várias vezes. As propostas ficaram em segundo plano, a uma semana de uma segunda volta que as sondagens dão como empatada.
Flávio Bolsonaro, senador do PL e filho do antigo Presidente Jair Bolsonaro, venceu a primeira volta, a 4 de Outubro, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do actual Presidente. A mais recente sondagem da Quaest, divulgada a 14 de Outubro, atribui-lhe 51% dos votos válidos para 25 de Outubro, contra 49% de Lula, um empate técnico dentro da margem de erro. Os dois candidatos têm também taxas de rejeição semelhantes, de 54% e 53%.
O filme e o banqueiro
Lula abriu as hostilidades com o caso Dark Horse, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro cujo financiamento está a ser investigado pela Polícia Federal. O Presidente exigiu ao adversário que explicasse os 134 milhões de reais que terão sido pedidos ao antigo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. “Explica os R$ 134 milhões. É só isso que eu quero, meu querido!”, disse. Lula chegou a chamar-lhe “miliciano”, desafiou-o a abrir as suas contas bancárias e telefónicas e questionou a compra de um imóvel de 10 milhões de reais.
Flávio respondeu com ironia: “Eu vou te dar uma cortesia para você assistir ao filme do Bolsonaro.” E contra-atacou com as mesmas armas. Levantou suspeitas sobre um encontro entre Lula e Vorcaro, falou de um alegado pagamento do Banco Masterpara financiar um documentário sobre o Presidente e acusou-o de proteger o filho, Lulinha, nas investigações à fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Apontou ainda para o antigo juiz Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol, que assistiam na plateia, para recordar a condenação de Lula na Operação Lava Jato, em 2018, depois anulada.
As propostas que sobraram
Na economia, Flávio Bolsonaro prometeu que o Estado compraria aos bancos, com desconto, as dívidas de famílias e empresas, com seis meses de carência para os particulares e um ano para as empresas. Prometeu também criar um Ministério da Prosperidade e transformar a Caixa Económica Federal “no Itaú das favelas”. Lula defendeu a política de valorização do salário mínimo e o investimento na indústria, e disse que o Brasil precisa de crescer entre 4% e 5% ao ano para reduzir a dívida pública.
Na segurança pública, o tema que mais divide os eleitores, Flávio propôs classificar as facçõescriminosas como organizações “narcoterroristas”, construir 500 mil vagas prisionais, baixar a idade de responsabilidade penal para os 14 anos nos crimes graves e aplicar a castração química a violadores. Lula defendeu a proposta de emenda constitucional da segurança pública e um ministério dedicado ao sector.
Na saúde, Flávio prometeu levar ao Sistema Único de Saúde (SUS) o “padrão Einstein”, do hospital privado de São Paulo. “Será que ele quer privatizar o SUS?”, reagiu Lula, que recordou a gestão da pandemia pelo Governo de Jair Bolsonaro. Lula questionou ainda o adversário sobre as ligações da família Bolsonaro a Donald Trump e sobre o acesso dos Estados Unidos aos minerais críticos do Brasil. Flávio negou ter defendido as tarifas norte-americanas contra o país.
Foi o primeiro debate presidencial de Flávio Bolsonaro. Lula participa neste tipo de confronto desde 1989.