Opinião

OPV do BFA coloca mercado de capitais na ordem do dia

O mercado de capitais angolano está a viver o seu melhor momento de sempre. Quem diria?

Após a Oferta Pública de Venda (OPV) do Banco de Fomento Angola (BFA), as questões estruturais que dominam as conversas em muitos círculos passaram a girar em torno dos produtos disponíveis, havendo uma grande procura por informação que permita às pessoas e empresas perceber como o mercado funciona, bem como conhecer as tendências e projecções futuras e o grau de risco associado às diferentes opções de investimento, entre outros aspetos.

Nunca como agora os corretores e analistas financeiros foram tão importantes e valorizados.

O que sabemos até aqui é que a OPV de 29,75% do capital social do BFA sendo 15% vendidos pela Unitel SA e 14,75% pelo BPI — permitiu aos emitentes realizar um negócio com ganhos na ordem dos 220,9 mil milhões de kwanzas (≈205–206 milhões de euros ou ≈US$ 242 milhões).

Esta foi, assim, a maior operação em bolsa realizada em 2025 em Angola e uma das maiores em África neste ano.

O mercado tinha apetite para mais, pois a procura superou amplamente a oferta e o preço da acção valorizou-se significativamente após a entrada em bolsa: no primeiro dia, atingiu o máximo de valorização permitido pelas regras da BODIVA (25%) e, nos dias seguintes, continuou a subir, passando dos iniciais 49 500 kwanzas para cerca de 120 000 kwanzas.

Outro dado assinalável é o facto de esta operação ter trazido cerca de 8 488 novos accionistas para o mercado, para além dos milhares de outros que não conseguiram transaccionar por terem licitado abaixo do valor.

A maioria dos especialistas procura agora compreender os efeitos desta operação no mercado de capitais angolano, destacando-se, entre outros pontos, o fortalecimento da liquidez e do apetite dos investidores – o que demonstra a existência de poupanças disponíveis (ociosas?) e interesse, tanto doméstico como, potencialmente, internacional, para operações na bolsa angolana.

Assinala-se ainda o aumento da valorização das empresas cotadas (em geral, mas em particular das acções do Banco BAI); o crescimento da capitalização do mercado, com o BFA a tornar-se uma das cinco empresas cotadas em bolsa, o que melhora a profundidade e a visibilidade do mercado acionista angolano; e, finalmente, o reforço da credibilidade do mercado junto dos investidores internacionais, uma vez que a magnitude e o sucesso da operação ajudam a colocar Angola no radar dos mercados emergentes africanos, reforçando também a confiança nas instituições reguladoras, como a Comissão do Mercado de Capitais (CMC) e a BODIVA.

É evidente que, se nos compararmos com outras geografias africanas como a África do Sul, onde a Johannesburg Stock Exchange (JSE) é a principal referência , ainda há um longo caminho a percorrer.

Trata-se de um mercado maduro, com grande profundidade, produtos diversificados (derivativos, ETFs) e elevada participação estrangeira.

Angola está ainda muito atrás em termos de dimensão e liquidez, mas o JSE constitui o benchmark de desenvolvimento.

Em termos absolutos, a BODIVA continua pequena comparada com a NGX (Nigéria) ou a NSE (Quénia), e muito menor face ao JSE.

Contudo, o impulso dado pelo BFA é significativo: uma entrada de cerca de US$ 239 milhões é material para um mercado em formação e cria uma curva de crescimento assinalável.

Se esta tendência se mantiver – com a concretização de outras OPV no quadro do ProPriv e com empresas privadas a abrirem o seu capital em bolsa -, o futuro do mercado de capitais angolano é promissor e muito optimista.

Apesar deste bom momento, o mercado de capitais angolano continua a enfrentar inúmeros desafios para alcançar maior maturidade e atractividade.

Destacam-se questões de regulação, uma vez que existem poucos activos disponíveis, o que gera um problema estrutural: muitos investidores querem comprar, mas poucos querem vender, podendo originar bolhas de expectativa ou elevados spreads de negociação.

Há também desafios de literacia financeira, bem como factores políticos e macroeconómicos a considerar.

Por exemplo, alguém reflectia comigo sobre o comportamento dos activos em bolsa em períodos eleitorais, lembrando que a estabilidade política e jurídica são elementos fundamentais para uma correcta avaliação de risco e tomada de decisão de investimento.

Não se pode, igualmente, descurar o risco cambial e o contexto económico mais amplo.

O kwanza continua sujeito a flutuações e a incertezas macroeconómicas (inflação, política monetária, dívida pública, dependência do petróleo), que podem afectar o desempenho real dos investimentos.

Mesmo sendo um risco conhecido, ganha relevância nas decisões de longo prazo, para além de outras questões como o relato e o governance das sociedades cotadas.

Paralelamente aos desafios, importa destacar as oportunidades: a previsão de novas OPV no quadro do Programa de Privatizações; o potencial de atração de capital estrangeiro como me confidenciaram recentemente credores de Eurobonds em roadshow a Angola; e a possibilidade de desenvolvimento de outros instrumentos financeiros ainda pouco explorados ou inexistentes, como fundos de ações, ETFs, títulos corporativos e obrigações, que permitirão aos investidores diversificar a sua carteira de activos e gerir melhor o risco associado aos mesmos.

O mercado angolano continua, como se depreende, em fase de maturação.

Para consolidar os ganhos obtidos, será fundamental manter a estabilidade macroeconómica, garantir um ambiente regulatório fiável, aumentar o número de empresas listadas, melhorar a liquidez, reduzir os custos de transação e mitigar os riscos cambiais.

Entretanto, sucesso da OPV do BFA marca mais do que um feito financeiro – representa um ponto de viragem simbólico para o mercado de capitais angolano.

É o sinal de que há confiança, capacidade e vontade de investir no futuro, num país que começa a ver na bolsa não apenas um espaço de transacção, mas um instrumento de desenvolvimento e de afirmação económica.

Se Angola souber consolidar este impulso, poderá transformar esta onda de entusiasmo numa verdadeira cultura de investimento e num mercado de capitais robusto, moderno e sustentável.

Por: Adebayo Vunge

Relacionadas

Ministro destaca papel da banca no financiamento do sector de

O Ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Azevedo,

SME inicia emissão de passaporte electrónico no MIREMPET

O Ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Pedro

Shell manifesta interesse em reforçar parceria com Angola

O Diretor-Geral da Shell, Alioune Sourang, foi recebido em 4