Procura por acções da Unitel supera oferta em 120% e Estado encaixa quase 300 milhões de euros. Mais de 11.200 novos accionistas e 17.549 ordens de subscrição confirmam sucesso da maior Oferta Pública de Venda de sempre em Angola, que admite os títulos à negociação já esta quarta-feira.
O Estado angolano encaixou 300,3 mil milhões de kwanzas com a venda de 15% do capital social da Unitel, a um preço final de 40.040 kwanzas por acção — o valor máximo do intervalo inicialmente definido —, com a procura a superar a oferta disponível em 120%.
Em comunicado divulgado esta segunda-feira, 27 de Julho, a Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) informou que a procura pelos 7,5 milhões de acções da operadora de telecomunicações, alienadas pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE), ascendeu a 9.054.299 títulos.
Mais de 11 mil novos accionistas
Das 17.549 ordens de subscrição recebidas, foram contempladas 16.571, correspondentes a 11.264 investidores que se tornaram novos accionistas da Unitel, segundo dados da BODIVA. Os resultados foram apurados numa Sessão Especial de Mercado Regulamentado, realizada na véspera da entrada oficial da operadora na bolsa de Luanda.
A liquidação física e financeira da operação está marcada para esta terça-feira, seguindo-se a admissão à negociação da totalidade das acções da Unitel na Bolsa, já na quarta-feira, data a partir da qual os títulos passam a ser livremente transaccionáveis pelos investidores.
A maior Oferta Pública de Venda de sempre em Angola
A Oferta Pública de Venda (OPV), iniciada a 6 de Julho e encerrada a 24 de Julho, insere-se no Programa de Privatizações do Executivo angolano (PROPRIV) e é a maior operação deste género já realizada no país — superando significativamente a anterior maior oferta pública angolana, protagonizada pelo Banco de Fomento Angola (BFA), que tinha movimentado cerca de 120 mil milhões de kwanzas.
Dos 15% do capital colocados à venda, 2% estavam reservados aos trabalhadores da empresa e os restantes 13% destinados ao público em geral, com um preço inicialmente indicativo entre 36.036 e 40.040 kwanzas por acção — intervalo em que acabou por prevalecer o valor mais elevado, reflexo da forte procura registada ao longo do processo.
O impacto da operação fez-se sentir mesmo antes do apuramento dos resultados: entre 23 de Junho e 13 de Julho, praticamente todas as empresas já cotadas na BODIVA registaram desvalorizações nas suas acções, um movimento que analistas associaram à realocação de liquidez dos investidores para financiar a subscrição da OPV da Unitel, e não a uma perda de confiança no mercado. A seguradora ENSA foi a mais penalizada, com uma queda acumulada de 18%, seguida do Banco Caixa Geral Angola, com menos 14,5%; o BAI perdeu 6,9%, enquanto o BFA e a própria BODIVA registaram quedas mais moderadas.
Primeira operadora de telecomunicações cotada em Angola
A Unitel é a maior operadora de telecomunicações angolana, com mais de 70% da quota de mercado, mais de 21 milhões de clientes e 25 anos de actividade, e torna-se agora a primeira empresa do sector das telecomunicações a entrar na Bolsa angolana — juntando-se a um mercado accionista até agora composto sobretudo por instituições financeiras, entre bancos, uma seguradora e a própria BODIVA.
A operadora era detida, até esta operação, em partes iguais pelo Estado angolano, através do IGAPE, e pela petrolífera estatal Sonangol, por via da MS Telecom e da PT Ventures. Com a conclusão da OPV, milhares de angolanos deixam de ser apenas clientes da Unitel para passarem também a ser seus accionistas, num marco simbólico para o aprofundamento do mercado de capitais angolano.