O Governo português aprovou, esta quarta-feira, 14 de Outubro, a venda de 49,9% do capital da TAP ao grupo alemão Lufthansa, que passará a assumir o papel de parceiro industrial da transportadora aérea nacional. A decisão surge após um processo de selecção em que a proposta alemã superou a apresentada pelo grupo franco-neerlandês Air France-KLM, segundo a publicação Eco.
A Lufthansa apresentou uma proposta financeira global de 1.201 milhões de euros pela participação inicial, incluindo a componente destinada aos trabalhadores e os valores associados à alienação das empresas Cateringpor e SPdH, além de um mecanismo de ajustamento ligado à evolução dos resultados da companhia.
Do montante global, 1.025 milhões de euros correspondem à aquisição directa de 49,9% da TAP, enquanto 118 milhões estão associados à oferta de 5% do capital aos trabalhadores, ao mesmo preço. Caso estes não subscrevam integralmente as acções disponibilizadas, a Lufthansa compromete-se a adquirir a parcela remanescente. Os restantes 58 milhões de euros dizem respeito à venda da Cateringpor e da SPdH.
A soma dos valores apresentados corresponde a uma avaliação de 2.407 milhões de euros para a totalidade do capital da TAP. De acordo com o Governo, a proposta incorpora um múltiplo de 6,4 vezes o EBITDA da transportadora, indicador utilizado para avaliar a relação entre o valor da empresa e os seus resultados operacionais.
Lufthansa prevê frota de 130 aviões e novos investimentos
Um dos factores que pesaram na decisão foi o plano de desenvolvimento apresentado pelo grupo alemão. A proposta prevê aumentar a frota da TAP, actualmente composta por 101 aeronaves, para 117 aviões até 2035 e para 130 numa fase posterior, associada à entrada em funcionamento do novo aeroporto de Lisboa.
O programa de investimento poderá atingir quatro mil milhões de euros e inclui a possibilidade de transferência de até oito aeronaves Airbus A350-900 para a companhia portuguesa, a partir de 2030.
A Lufthansa propõe igualmente a criação de uma escola de aviação civil e militar na Base de Tancos, com um investimento de centenas de milhões de euros na renovação das infra-estruturas e a criação prevista de 200 postos de trabalho.
Tanto a proposta alemã como a da Air France-KLM contemplavam a manutenção dos postos de trabalho e o respeito pelos contratos colectivos em vigor.
A oferta do grupo franco-neerlandês ascendia a 1.038 milhões de euros, ficando 13,6% abaixo da proposta da Lufthansa. Previa ainda um pagamento adicional de 100 milhões de euros, condicionado ao cumprimento de metas de EBITDA e de dívida financeira até 2028. A dependência desse pagamento em relação ao desempenho futuro da TAP terá contribuído para a decisão do Executivo português.
Segunda fase poderá elevar avaliação da TAP para 2.552 milhões
A Lufthansa apresentou também uma proposta para uma segunda fase de privatização, com vista à aquisição dos restantes 50,1% do capital da TAP.
Nesta etapa, o grupo alemão propõe pagar 863 milhões de euros pela participação remanescente e atribuir aos accionistas abrangidos uma participação de 5% no capital da Lufthansa, avaliada em 488 milhões de euros.
Considerando as duas fases da operação, a valorização global da TAP poderá atingir 2.552 milhões de euros, caso os termos apresentados para a aquisição integral sejam concretizados.
A concretização desta segunda etapa permitiria à Lufthansa assumir o controlo total da transportadora portuguesa, aprofundando a integração da TAP na sua estrutura empresarial.
TAP reforça presença do grupo alemão na América Latina
Com a entrada da Lufthansa no capital, a TAP passará a integrar o conjunto de companhias de rede do grupo, ao lado da Lufthansa, Swiss, Brussels Airlines, Austrian Airlines e ITA Airways. O conglomerado inclui ainda a Eurowings, A no vocacionada para o segmento de baixo custo, e outras transportadoras regionais.
O grupo alemão transportou 135 milhões de passageiros em 2025, contra os 16,7 milhões registados pela TAP no mesmo período. As receitas da Lufthansa atingiram 39,6 mil milhões de euros, enquanto a sua frota era composta por 737 aeronaves, com operações em cerca de 330 destinos de aproximadamente 100 países.
A integração permitirá à TAP beneficiar da dimensão operacional e comercial do grupo, mantendo como um dos seus principais activos a rede de ligações ao Brasil, mercado em que a companhia portuguesa assume uma posição de destaque entre as transportadoras europeias.
A rede da TAP, que abrange mais de 90 destinos, poderá também contribuir para alargar a presença da Lufthansa na América Latina. Segundo os dados apresentados, o grupo alemão poderá aumentar a sua quota de mercado na região de 9% para 20%.
A TAP deverá manter-se na Star Alliance, aliança global de companhias aéreas de que já faz parte. À semelhança do processo seguido com a ITA Airways, a Lufthansa deverá procurar integrar a transportadora portuguesa na parceria transatlântica com a norte-americana United Airlines. A empresa dos Estados Unidos já manifestou interesse na TAP numa carta enviada ao Governo português.
Lufthansa reforça operações e emprego em Portugal
O grupo Lufthansa mantém uma presença consolidada em Portugal, onde disponibiliza actualmente 353 voos semanais de e para o país e emprega mais de 500 trabalhadores.
Entre as suas estruturas nacionais destaca-se o centro de serviços partilhados Lufthansa Ground Services Portugal, instalado no Porto.
O grupo está igualmente a construir uma unidade da Lufthansa Technik, em Santa Maria da Feira, destinada à reparação de componentes de motores de aeronaves. Segundo a empresa, o projecto deverá contribuir para elevar o número total de trabalhadores para mais de mil até 2030.
A privatização da TAP abre, assim, uma nova etapa para a companhia portuguesa, com a perspectiva de integração num dos maiores grupos europeus de aviação, expansão da frota e reforço das ligações internacionais, num processo cuja evolução dependerá da concretização dos compromissos assumidos e das etapas seguintes da operação.