Joesley Batista, empresário brasileiro e um dos principais accionistas da JBS, voltou a ocupar o centro do palco político e geopolítico. Em Novembro, Joesley foi notícia no Brasil e no mundo por se ter reunido, por sua iniciativa, mas com conhecimento prévio da Casa Branca, com Nicolás Maduro, a quem pediu para deixar o governo da Venezuela.
Donald Trump pediu o mesmo a Maduro numa longa conversa telefónica, mas o presidente da Venezuela mantém-se irredutível, ao mesmo tempo que os Estados Unidos aumentam a pressão sobre Caracas, o que pode resultar no primeiro conflito na região desde a Guerra das Malvinas, em 1984.
Até agora, Joesley não terá tido mais sucesso do que Trump, mas o seu papel é tido como muito relevante. Antes de se encontrar com Maduro, o empresário brasileiro foi recebido na Sala Oval da Casa Branca pelo Presidente Trump.
A JBS e as outras empresas da holding J&F empregam mais de 70 mil norte-americanos nos Estados Unidos, nos sectores da alimentação, energia, mercado financeiro, mineração, comunicação, celulose e higiene e limpeza. O peso do empresário é tangível na economia norte-americana e terá sido ele quem convenceu Trump a amenizar as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos ao Brasil.
Enquanto o Presidente Lula da Silva batia o pé a Trump, Joesley Batista apertava-lhe a mão na Casa Branca, desbloqueando a tensão e promovendo o diálogo comercial entre duas das maiores nações do continente americano e duas das grandes democracias do mundo.
Mas terá agido sozinho, à margem do governo brasileiro, ainda assim com resultados visíveis na relação entre Trump e Lula, que se encontraram durante a última Assembleia Geral das Nações Unidas, no final de Setembro, trocaram afabilidade e cortesia e, pouco depois, assistiu-se a uma redução substancial das taxas comerciais entre os dois países.
Não é de hoje, entretanto, que Joesley influencia a vida de presidentes e presidenciáveis. Em 2017, depois de ter sido investigado pela polícia em diversas operações relacionadas com a Lava-Jato, decidiu assinar um acordo de delação premiada com as autoridades.
E fez mais, marcou uma reunião fora da agenda oficial com o então presidente Michel Temer, na residência oficial, e gravou a conversa com um equipamento escondido na roupa.
A determinada altura, Temer disse “tem de manter isso aí, viu”, uma frase que marcaria a política brasileira da época, depois de Joesley lhe ter dito que estava a pagar pelo silêncio de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, entretanto preso no âmbito da Lava-Jato, que liderara o processo de impeachment de Dilma Rousseff no ano anterior, o qual alçara o vice-presidente a presidente.
Houve repercussões económicas e políticas. O Supremo Tribunal Federal determinou a abertura de um inquérito contra Temer por corrupção passiva, obstrução à justiça e organização criminosa. Temer viria a cair, e Joesley teve tudo a ver com isso.
Joesley gravou também um telefonema mantido com Aécio Neves, que havia perdido a eleição presidencial de 2014 para Dilma Rousseff por uma margem pequena e ambicionava candidatar-se em 2018, após o governo-tampão de Temer, com legítimas esperanças de vitória. Na chamada, porém, Aécio pede a Joesley dois milhões de reais, para pagar a advogados que o defendessem da Lava-Jato.
A divulgação desse e de outros trechos comprometedores arruinou a carreira política do então presidenciável pelo PSDB, partido de centro-direita que também nunca mais se reergueu depois do episódio. O caso abriu caminho à eleição, em 2018, de Jair Bolsonaro, que aproveitou a crise não só no PSDB, mas também no PT, atingido ainda com mais veemência pela Lava-Jato, para protagonizar um discurso anti-sistema.
Joesley, com o irmão Wesley, é responsável pela internacionalização da empresa familiar JBS, formada em Goiás por José Batista Sobrinho (a marca tem as iniciais do nome do patriarca), pai de ambos e de Júnior, o primogénito, também empresário.
Hoje, a JBS, via holding J&F, é dona de um mundo empresarial que chega a quase todos os sectores da economia, entre o agro-negócio, a banca e a comunicação, passando pelo sector energético, o papel e a celulose com espaço para a cosmética e a mineração.
Casado com Ticiana Villas Boas, ex-apresentadora de telejornais da Rede Bandeirantes, Joesley teve o casamento em risco ainda na fase das gravações a Temer e a Aécio, por ter enviado, por engano, outros áudios à polícia que se tornaram públicos, nos quais falava de casos extraconjugais.
Esses áudios enviados por engano, aliás, revelaram ainda outros crimes cometidos pelo próprio Joesley, relacionados com o Ministério da Agricultura, que o levaram à prisão preventiva por seis meses, entre 2017 e 2018. Libertado em Março, voltou à cadeia em Novembro desse ano, mas apenas por três dias.
A partir daí, passou por um período de actuaçãodiscreta, enquanto assistia ao crescimento imparável dos negócios, ao ponto de se tornar próximo de Trump.
O encontro com Nicolás Maduro reacende o debate sobre o papel do empresário na reaproximação entre o Brasil e a Venezuela, depois de anos de relações tensas. A presença de Batista ao lado do líder venezuelano sugere uma tentativa de construir pontes económicas e diplomáticas, não necessariamente em nome do Brasil, mas como representante dos interesses dos Estados Unidos.
Aos 53 anos, natural de Formosa, uma cidade com cerca de 115 mil habitantes no estado de Goiás, Joesley Batista continua a ser uma figura controversa. Apesar de ser um dos homens mais ricos do Brasil – a revista norte-americana Forbes estima a sua fortuna em cerca de 4,1 mil milhões de dólares – é a capacidade de influência política, dentro e fora do país, que mais chama a atenção.
Batista parece ter ultrapassado o estatuto de grande empresário para assumir um papel informal de mediador político, num equilíbrio delicado entre interesses económicos, diplomacia e poder, que continua a suscitar interrogações no Brasil e na comunidade internacional. Mas, claramente, o empresário é hoje um influencer, um facilitador político decisivo.