Economia

Galp faz 20 anos em bolsa com Angola como accionista e o Brasil como motor

A petrolífera portuguesa estreou-se na bolsa de Lisboa a 23 de Outubro de 2006. Duas décadas depois, a Sonangol continua entre os maiores accionistas, a Galp saiu da produção petrolífera em Angola e o crescimento vem do pré-sal brasileiro.

A Galp entrou em bolsa há 20 anos, a 23 de Outubro de 2006, com as acções vendidas a 5,81 euros cada e apenas 23% do capital disperso em bolsa. Duas décadas depois, os accionistas acumulam ganhos, o negócio mudou e o petróleo do Brasil tornou-se o principal motor de crescimento. Pelo caminho, a relação com Angola manteve-se no capital, mas desapareceu da produção.

Angola está no capital da Galp quase desde o início, através da Amorim Energia, a holding que junta a família Amorim e a Esperaza Holding, controlada pela Sonangol. Depois de uma redução de capital anunciada em Março, a Amorim Energia passou a deter 37,5% da Galp: 20,6% são da família Amorim e 16,9% da Esperaza, ou seja, da petrolífera estatal angolana.

A participação angolana teve uma história atribulada. Em 2006, 40% da Esperaza foram transferidos para a Exem Holding, controlada por Isabel dos Santos e pelo marido, Sindika Dokolo. Em 2021, um tribunal holandês deu razão à Sonangol e anulou a transferência, e um tribunal arbitral reconheceu depois a petrolífera como única accionista da Esperaza.

O investimento foi rentável. Entre 2005 e 2016, a Amorim Energia investiu cerca de 1805 milhões de euros em acções da Galp, dos quais 812 milhões vieram da Esperaza, e recebeu cerca de 2091 milhões em dividendos até essa data, segundo contas do Expansão. Luanda não tem pressa em vender. “Estamos muito satisfeitos com o que temos neste momento”, disse em 2024 o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, sobre as participações na Galp e no BCP. São investimentos que visam “manter uma carteira equilibrada”.

Saída e possível regresso

No terreno, o caminho foi o inverso. A Galp estava presente na exploração petrolífera em Angola desde 1982, mas em 2024 vendeu os últimos activos de produção no país, nos blocos 14 e 32, à angolana Etu Energias, por 830 milhões de dólares. Em Angola ficou apenas a distribuição de combustíveis, através da Sonangalp, parceria com a Sonangol.

A porta, porém, não ficou fechada. Em Julho, o presidente do Conselho de Administração da Sonangol, Sebastião Gaspar Martins, revelou que uma delegação da Galp, “depois de ter saído, voltou e quer investir connosco” na exploração e produção. A Galp não confirmou. O momento é propício: Angola leiloou mais de 70 blocos petrolíferos nos últimos anos e quer travar o declínio da produção, que caiu de um pico de dois milhões de barris por dia em 2008 para cerca de um milhão.

Hoje, toda a produção de petróleo e gás da Galp vem do Brasil, onde a empresa entrou no pré-sal com descobertas como Tupi e Lula. No primeiro trimestre de 2026, a produção chegou aos 129 mil barris de equivalente de petróleo por dia, mais 23%, com o arranque do campo de Bacalhau, na bacia de Santos. O resultado operacional ajustado subiu 41%, para 943 milhões de euros. A aposta seguinte está na Namíbia, onde a descoberta de Mopane, agora em parceria com a TotalEnergies, pode vir a ser a próxima grande fonte de crescimento. A Galp tem também trabalhos de exploração em São Tomé e Príncipe.

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