O senador ficou à frente do Presidente, contrariando as sondagens, num pleito marcado pelas tensões entre Brasília e Washington. Os dois candidatos têm agora três semanas para conquistar os eleitores do centro e da direita moderada.
O senador Flávio Bolsonaro venceu a primeira volta das eleições presidenciais brasileiras, realizadas no Domingo, e vai disputar a segunda volta com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com 99,96% das secções apuradas, Flávio obteve 47,04% dos votos válidos, contra 45,15% de Lula. Como nenhum dos candidatos ultrapassou os 50%, os brasileiros voltam às urnas a 25 de Outubro.
Os restantes candidatos ficaram muito atrás: Augusto Cury teve 2,89%, Renan Santos 2,24%, Ronaldo Caiado 2,18% e Romeu Zema 0,27%. Mais de 150 milhões de brasileiros foram chamados a votar.
O resultado contrariou as previsões. As sondagens privadas feitas antes da votação davam a Lula uma vantagem de cerca de três pontos percentuais na primeira volta. Durante a contagem, Flávio chegou a ter uma vantagem de 7,3 pontos, com quase dois terços dos votos apurados, mas a diferença foi encurtando ao longo da noite.
Segundo analistas ouvidos pela Reuters, Flávio terá beneficiado de “votos de protesto” de eleitores que votaram contra Lula, mais do que a favor do senador, e que se esperava que guardassem esse voto para a segunda volta. O próprio candidato contava com isso: na véspera, disse aos jornalistas que esperava o voto de pessoas que, de outro modo, votariam noutro candidato, mas que se opõem a Lula.
Flávio Bolsonaro interpretou o resultado como um pedido de mudança e declarou o fim da era do Partido dos Trabalhadores. Lula admitiu a decepção com um resultado “inesperado”, já que acreditava poder vencer à primeira volta, e garantiu que esta Segunda-feira começa “uma nova campanha”. O Presidente apontou também ao adversário, alertando os eleitores para a incerteza de um candidato com “uma biografia de um passado sombrio”.
Uma segunda volta difícil para Lula
As contas para a segunda volta não favorecem o Presidente. Os candidatos que ficaram em terceiro, quarto e quinto lugar são todos de direita, o que dá a Flávio um reservatório natural de eleitores e antecipa uma disputa muito renhida. Ainda assim, nada está decidido: segundo a politóloga Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Lula deve olhar para os votos de Augusto Cury e Ronaldo Caiado e procurar reduzir a abstenção.
A segunda volta tem também o sabor de uma desforra. Há quatro anos, Lula derrotou o pai de Flávio, Jair Bolsonaro, pela margem mais estreita da história do país. Jair Bolsonaro recusou aceitar o resultado, e os seus apoiantes invadiram e vandalizaram o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. O antigo Presidente foi depois condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Washington no centro da campanha
A campanha ficou marcada pelas tensões entre Brasília e Washington. Na semana passada, o advogado-geral da União acusou os Estados Unidos de minarem a democracia brasileira, um tema central da campanha de Lula.
Flávio Bolsonaro, por seu lado, prometeu juntar o Brasil às “iniciativas militaristas contra o crime” lançadas por Washington na América Latina, segundo a Foreign Policy, uma peça central da chamada “Doutrina Donroe”, com que a Casa Branca procura exercer influência no hemisfério ocidental. Uma vitória do senador prolongaria a vaga de vitórias da direita alinhada com Donald Trump na América Latina, enquanto uma reeleição de Lula poderia ser uma dor de cabeça para Washington, que tem estado em choque com o seu governo em matérias de comércio e segurança.
Para lá do resultado, há quem tema pela margem de manobra do país. Apesar dos imensos recursos do Brasil, a sua “autonomia para agir está em risco”, defendeu um especialista na Foreign Affairs, com as grandes potências cada vez mais capazes de impor ao Brasil os seus termos de relacionamento.