A desaceleração da economia chinesa e a possível transformação do seu modelo de crescimento poderão ter impactos significativos em Angola, um dos países africanos mais expostos à evolução da segunda maior economia do mundo, segundo um relatório do grupo de reflexão norte-americano Rhodium Group.
De acordo com a análise, a China — principal parceiro comercial e financeiro de Angola — deverá assumir, nos próximos anos, um perfil económico diferente, obrigando os decisores angolanos a repensar estratégias de crescimento e transformação económica.
O relatório sublinha que Angola é particularmente sensível à evolução da economia chinesa devido à forte dependência das exportações de crude. A China é um dos principais destinos do petróleo angolano, mas os analistas antecipam que as importações chinesas de petróleo africano poderão estagnar ou mesmo diminuir, à medida que Pequim acelera a transição energética, expande a frota de veículos elétricos e reduz a intensidade energética da sua economia.
Este cenário poderá exercer pressão adicional sobre as receitas fiscais, as exportações e a capacidade do Estado angolano para honrar a sua dívida externa. O documento destaca que Angola já paga mais à China em amortizações do que recebe em novos empréstimos, refletindo uma inversão nos fluxos financeiros bilaterais.
Angola é apontada como um dos países africanos com maior exposição à dívida chinesa, num contexto em que os bancos chineses se tornaram mais avessos ao risco, privilegiando a resolução de problemas internos e a renegociação de dívidas existentes, em detrimento da concessão de novo financiamento.
Apesar do recuo do financiamento através de dívida, o investimento direto estrangeiro chinês em África mantém-se relativamente resiliente. Em 2024, atingiu cerca de 11 mil milhões de dólares, concentrando-se sobretudo em setores intensivos em capital como mineração, energia e construção. Angola continua entre os principais destinos desse investimento, embora os investidores chineses adotem agora uma postura mais seletiva.
No estudo, o Rhodium Group conclui que uma China a crescer de forma mais lenta, mas sustentada, após reformas estruturais orientadas para o consumo interno, representa o cenário mais favorável para África. Ainda assim, alerta que nenhum cenário beneficiará de forma uniforme todos os países, sendo Angola um dos mais vulneráveis às mudanças no atual modelo económico chinês.