Internacional

Cuba sitiada enquanto o domínio dos Estados Unidos se consolida

A população cubana enfrenta um agravamento das dificuldades económicas e sociais, com apagões cada vez mais prolongados e uma forte subida dos preços de bens essenciais, num contexto de maior pressão dos Estados Unidos sobre a ilha.

O cenário é traçado por uma reportagem da Reuters baseada em entrevistas a mais de três dezenas de residentes de Havana e arredores, incluindo vendedores ambulantes, motoristas de táxi, trabalhadores do sector privado e funcionários públicos.

Os relatos descrevem um quotidiano de escassez, em que bens e serviços — sobretudo os dependentes de combustíveis — se tornam mais raros e caros. Em grande parte das zonas rurais, os cortes de electricidade são uma realidade há anos, devido à fragilidade do sistema de produção energética. Os residentes habituaram-se a passar horas sem luz, internet ou água canalizada. A capital, que até há pouco tempo conseguia atenuar melhor estes problemas, começa agora a sentir de forma mais intensa os efeitos da crise.

A situação agravou-se com a redução das remessas de petróleo para Cuba, depois de a Venezuela e o México terem suspendido envios de crude para a ilha. Ao mesmo tempo, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a imposição de tarifas a países que forneçam petróleo a Cuba, aumentando a pressão sobre o Governo cubano, tradicional adversário de Washington. A decisão surge após o afastamento do Presidente venezuelano Nicolás Maduro, aliado estratégico de Havana.

Apesar das dificuldades, não se registam, até ao momento, protestos significativos. Num país onde a dissidência tem sido historicamente limitada, muitos evitam falar abertamente sobre contestação. Ainda assim, vários entrevistados admitem que a população está no limite.

A desvalorização do peso cubano, que perdeu mais de 10% face ao dólar em três semanas, contribuiu para o aumento dos preços dos alimentos. “Isto colocou-me numa situação impossível. Não há salário que aguente”, afirmou à Reuters Yaite Verdecia, dona de casa em Havana.

As filas para abastecimento de combustível aumentaram e, desde o bloqueio das entregas de petróleo venezuelano em meados de Dezembro, a gasolina passou a ser vendida quase exclusivamente em dólares, moeda a que poucos cubanos têm acesso. “Antes era possível inscrever-se e abastecer uma vez por mês em pesos. Agora já não. As vendas em moeda nacional terminaram”, relatou o residente Jesus Sosa.

A escassez afecta também os transportes públicos e privados, com autocarros e táxis a reduzir actividade ou a aumentar preços. “Tem de se pagar ou ficar em casa”, resumiu Daylan Perez, de 22 anos, que trabalha com táxis privados em Havana. Mesmo os veículos eléctricos enfrentam dificuldades devido a apagões que podem durar entre oito e 12 horas.

O Governo cubano, herdeiro do sistema instaurado após a revolução de 1959 liderada por Fidel Castro, tem resistido a décadas de dificuldades económicas e sanções, contrariando previsões de colapso. As maiores manifestações recentes ocorreram em 2021, em plena pandemia. Desde então, a emigração de entre um a dois milhões de cubanos e a repressão sobre a dissidência reduziram a capacidade de mobilização interna.

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Bruno Rodríguez, declarou uma “emergência internacional” em resposta às ameaças tarifárias dos Estados Unidos, classificando-as como uma “ameaça extraordinária”. Ainda assim, as autoridades têm dado poucos detalhes sobre como enfrentar um eventual agravamento humanitário.

No terreno, a prioridade das famílias é garantir o básico: comida, combustível para cozinhar e água. “Estou apenas a rezar para que Deus encontre uma forma de nos tirar desta situação”, disse Mirta Trujillo, vendedora ambulante de 71 anos, que afirma já não conseguir comprar alimentos suficientes. “Não estou contra o meu país, mas não quero morrer de fome.”

Os apagões frequentes têm também impacto na segurança. A Reuters testemunhou recentemente um acidente num cruzamento movimentado de Havana devido à falta de semáforos em funcionamento. “Antes cortavam a luz duas ou três vezes por semana; agora é todos os dias e às vezes até 12 horas”, relatou Raysa Lemu, moradora nos arredores da capital.

Para muitos, o futuro é incerto. “Estamos a afundar-nos, mas não há nada que possamos fazer. Isto é sobrevivência”, resumiu Aimee Milanes, de 32 anos.

Relacionadas

Ministro destaca papel da banca no financiamento do sector de

O Ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Azevedo,

SME inicia emissão de passaporte electrónico no MIREMPET

O Ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Pedro

Shell manifesta interesse em reforçar parceria com Angola

O Diretor-Geral da Shell, Alioune Sourang, foi recebido em 4