Política 

China ultrapassa Estados Unidos na confiança da juventude africana, revela African Youth Survey 2026

Estudo mais abrangente sobre jovens africanos, promovido pela Ichikowitz Family Foundation, mostra 95% de opinião positiva sobre Pequim, contra 85% sobre Washington, num contexto de reconfiguração das alianças globais no continente

O African Youth Survey, liderado pela Ichikowitz Family Foundation, é o estudo mais abrangente e credível já realizado sobre as atitudes, aspirações e realidades vividas pelos jovens do continente africano. Desde o seu lançamento em 2020, o inquérito tornou-se uma referência mundialmente reconhecida para compreender as prioridades que estão a moldar o futuro de África.

Assente em entrevistas presenciais rigorosas, o estudo capta as vozes autênticas de jovens africanos entre os 18 e os 24 anos, oferecendo uma visão sem paralelo sobre como estes encaram a oportunidade, a governação, a identidade e o seu lugar no mundo. À medida que a população jovem de África continua a crescer, as suas perspectivas não só moldam o debate nacional em cada país, como influenciam cada vez mais as prioridades globais de política, investimento e desenvolvimento — e é precisamente esse tipo de dados, profundidade e credibilidade que o African Youth Survey procura garantir.

China ultrapassa Estados Unidos na confiança dos jovens africanos

A quarta edição do estudo, divulgada em Maio, baseou-se em cerca de seis mil entrevistas presenciais realizadas em 16 países africanos, junto de jovens entre os 18 e os 24 anos, dando continuidade a um programa de investigação que, desde 2020, já envolveu mais de 20 mil jovens em 30 países diferentes.

Entre os dados mais marcantes da edição de 2026 está a confirmação de que a China ultrapassou os Estados Unidos na percepção positiva da juventude africana: 95% dos jovens inquiridos consideram a influência de Pequim no continente como positiva, contra 85% que dizem o mesmo sobre Washington. A Rússia também tem vindo a ganhar terreno na disputa pela influência entre os jovens africanos, com 83% de opiniões favoráveis, um salto significativo face aos 68% registados em 2024.

Segundo a fundação, “a influência percebida da China e da Índia tem crescido desde 2024, com a China a ser cada vez mais vista como um parceiro mais favorável do que os Estados Unidos — um sentimento moldado, em parte, pelo regresso da administração Trump”. O inquérito foi realizado num momento marcado por tarifas alternadamente impostas e suspensas pela administração norte-americana, bem como por conflitos na Europa e no Médio Oriente que têm levado à reconfiguração de cadeias de abastecimento globais — um contexto que tem intensificado a atenção de potências como os Estados Unidos, a China e outras economias emergentes sobre as riquezas minerais do continente africano.

Um reconhecimento internacional crescente

A Ichikowitz Family Foundation recebeu recentemente uma distinção da Commonwealth pelo impacto do African Youth Survey na definição de políticas públicas, um reconhecimento que, segundo o presidente da fundação, Ivor Ichikowitz, “não é sobre a produção de investigação elegante”, mas sim sobre “confrontar a realidade de que demasiados jovens africanos continuam excluídos da oportunidade, do capital e da tomada de decisão, mesmo enquanto os líderes falam constantemente sobre o desenvolvimento da juventude”. “O African Youth Survey existe para tornar essa realidade impossível de ignorar”, sublinhou.

Para além da recolha de dados, a fundação tem procurado integrar a investigação com iniciativas complementares, como o Arquivo de História Oral Africana e o projecto #IamConstitution, associando o estudo à narrativa e à consciencialização cívica, com o objectivo de influenciar tanto as políticas públicas como o discurso público em torno da juventude africana.

Angola fora da amostra, mas tendência com eco regional

Angola não figura, para já, entre os 16 países cobertos pela mais recente edição do African Youth Survey — que inclui países como Botsuana, Camarões, Chade, Costa do Marfim, Tanzânia, Namíbia, Congo-Brazzaville, Etiópia, Gabão, Gana, Quénia, Malawi, Nigéria, Ruanda, África do Sul e Zâmbia. Ainda assim, as tendências identificadas pelo estudo — nomeadamente a crescente aproximação da juventude africana à China e à Rússia, em detrimento da influência tradicional dos Estados Unidos e da Europa — têm eco directo em países vizinhos de Angola e reflectem um movimento mais amplo de reconfiguração das alianças geopolíticas em toda a região da África Austral e Central, onde Angola tem procurado, nos últimos anos, diversificar as suas próprias parcerias económicas e diplomáticas.

Segundo edições anteriores do inquérito, os jovens africanos têm manifestado de forma consistente preocupações relacionadas com a governação responsiva, a criação de oportunidades económicas, a acção climática e a luta contra a desinformação — ao mesmo tempo que se mostram optimistas quanto ao futuro do continente, mas cientes dos desafios estruturais que ainda travam a concretização plena das suas aspirações, com destaque para a corrupção, apontada de forma recorrente como um dos principais entraves ao progresso pessoal e colectivo da geração mais jovem de África.

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