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Angola tem potencial para se reinventar considera António Costa Silva 

Apesar de décadas de desafios económicos e sociais, António Costa Silva acredita que Angola pode transformar o seu futuro. Agricultura, indústria, juventude e investimento estratégico em educação e saúde são as chaves para um país mais próspero, diversificado e resiliente.

António Costa Silva nasceu em Angola, onde cresceu e estudou. Em Portugal, licenciou-se em Engenharia de Minas pelo Instituto Superior Técnico, fez um mestrado em Engenharia de Petróleos no Imperial College, em Londres, e obteve o doutoramento em colaboração entre as duas instituições. Foi também em Portugal que exerceu o cargo de ministro da Economia do Mar no XXIII Governo, liderado por António Costa. Nos últimos meses, viajou por Angola e, em entrevista recente, partilhou as suas reflexões sobre o país.

Costa Silva considera que o modelo de desenvolvimento económico seguido por Angola, tem de ser alterado, e isto apesar do país ter aumentado extraordinariamente a produção petrolífera após a independência – passando de cerca de 200 mil barris por dia em 1973 para quase dois milhões em certos períodos -, este crescimento concentrou a riqueza num sector específico, distorcendo a diversificação económica e criando uma economia de enclave centrada no petróleo.

O país experimentou o fenómeno conhecido como “doença holandesa”, em que receitas fáceis do petróleo reduziram a necessidade de desenvolver outros sectores, como a agricultura e a indústria transformadora, levando ao colapso da agricultura (de 20% do PIB em 1974 para 4% atualmente) e da indústria (de 18% para cerca de 5%).

A corrupção é outro desafio identificado. Entre 2002 e 2015, apesar de o Estado angolano ter recebido cerca de 840 mil milhões de dólares em receitas petrolíferas, grande parte do dinheiro desapareceu ou foi mal aplicado.

Costa Silva sublinha que Angola precisaria de uma reforma ética e institucional profunda e de uma luta contínua contra a corrupção, valorizando as iniciativas do Presidente João Lourenço desde 2017, embora considere que os avanços têm sido ainda tímidos.

Apesar destas dificuldades, António Costa Silva destaca caminhos positivos para o futuro. A agricultura é um sector-chave: Angola tem 35 milhões de hectares cultiváveis, mas apenas 16% são utilizados. Melhorar a organização dos mercados rurais, revitalizar a extensão rural com técnicos agrícolas e engenheiros agrónomos, criar bancos de sementes e de fertilizantes, investir em electrificação rural e implementar mecanismos de microcrédito pode transformar a produção agrícola.

A electrificação rural, que passou de 2,3 gigawatts em 2015 para 6,2 gigawatts em 2022, é um exemplo concreto de progresso, com planos de expansão até 2028.

A indústria também oferece oportunidades significativas. Muitas fábricas e infraestruturas industriais históricas ainda existem e podem ser reactivadas através de políticas activas, subvenções e parcerias nacionais e internacionais.

O corredor do Lobito, incluindo a linha ferroviária de Benguela, é estratégico para o desenvolvimento económico e para a ligação a países vizinhos ricos em recursos minerais, como Zâmbia e a República Democrática do Congo. Angola possui ainda 31 das 56 matérias-primas estratégicas para a economia, e há potencial para criar toda a cadeia de valor local, da extracção à produção de bens de alto valor, como baterias e veículos elétricos, tornando o país um epicentro económico no continente.

A juventude angolana, que representa 70% da população com menos de 20 anos, é outro trunfo. O desemprego jovem, embora elevado, representa também um potencial enorme se houver investimento em educação e formação de capital humano.

Exemplos concretos, como a fábrica de medicamentos Viemba no Huambo, demonstram que projectos inovadores podem aproveitar talentos locais e gerar impacto positivo imediato na vida das comunidades.

Costa Silva conclui que Angola tem todas as condições para reinventar-se. Com uma aposta consistente na educação, na saúde, na diversificação económica e num pacto entre forças políticas, o país pode, ao longo das próximas décadas, transformar o seu potencial em desenvolvimento sustentável, tornando-se mais próspero e menos vulnerável às armadilhas históricas do passado.

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