Economia

Angola cultiva apenas 17,7% das suas terras aráveis, muito aquém da intensidade agrícola de outros países africanos

Ministro da Agricultura revela que país usa apenas 6,2 milhões dos 35 milhões de hectares aráveis disponíveis, um nível de aproveitamento inferior ao de vizinhos como Moçambique ou à média do continente

Angola possui 35 milhões de hectares de terras aráveis, mas apenas 6,2 milhões dessa área — o equivalente a 17,7% do total — é efectivamente cultivada, revelou o ministro da Agricultura e Florestas, Isaac dos Anjos, durante uma audição na Assembleia Nacional.

De acordo com o governante, Angola conta com 35 milhões de hectares de terras aráveis distribuídos pelas 21 províncias do país, mas apenas 6,2 milhões desses hectares são efectivamente cultivados, a maioria por agricultores familiares. As explorações familiares ocupam 5,6 milhões de hectares, enquanto o sector empresarial opera em apenas 608 mil hectares — sendo que o país conta já com 135 mil hectares de área irrigada.

Um aproveitamento abaixo da média continental

O nível de aproveitamento agrícola angolano fica aquém do observado noutros países africanos com perfis de terra comparáveis. Moçambique, por exemplo, tem cerca de 46% do seu território classificado como terra arável, mas utiliza apenas 12% dessa área — uma percentagem ainda inferior à angolana, mas que ilustra um problema estrutural partilhado por vários países da região austral do continente: a abundância de terra disponível não se traduz, por si só, em produção efectiva.

Já a Nigéria, o maior produtor agrícola do continente, tem hoje cerca de 50 milhões de hectares de terra cultivada — mais do que o dobro do total de terras aráveis existentes em Angola —, seguida pela Etiópia, com cerca de 29 milhões de hectares cultivados, praticamente o quíntuplo do que Angola cultiva actualmente. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), a África detém cerca de 60% das terras aráveis não cultivadas de todo o planeta — um potencial gigantesco que, segundo vários especialistas, poucos países africanos têm conseguido converter em produção real, devido a limitações de mão-de-obra qualificada, acesso a financiamento, energia eléctrica e sistemas de irrigação e drenagem.

Irrigação: Angola ainda distante dos exemplos do Norte de África

Ao nível da irrigação, a situação angolana também revela margem de progressão significativa. Com apenas 135 mil hectares irrigados — uma fracção residual dos 6,2 milhões de hectares cultivados —, Angola está longe de países como o Egipto ou Marrocos, cuja produção agrícola depende quase inteiramente de sistemas de irrigação extensivos, dada a escassez de chuva nessas regiões. A nível continental, apenas cerca de 10% das terras cultivadas em África são irrigadas, segundo dados da FAO — um indicador que mostra que o desafio angolano, embora significativo, não é exclusivo do país, mas reflecte uma limitação estrutural comum a boa parte do continente.

“Se fôssemos mesmo ricos, o nosso povo seria assim tão pobre?”

Na audição, promovida pela Comissão de Economia e Finanças do parlamento angolano, Isaac dos Anjos defendeu a necessidade de se fazer a correcção dos solos para garantir a sua fertilização, rebatendo aquilo que classificou como uma “teoria sem base científica” sobre a riqueza natural dos solos angolanos para o cultivo.

“Qualquer discurso de cada um de nós, a primeira coisa que diz é que Angola é rica, tem terras aráveis, tem muitos recursos, água. Mas se puséssemos a mão na cabeça, se isso fosse verdade, acham mesmo que o nosso povo seria assim tão pobre?”, questionou o ministro. “Será mesmo que nos autoflagelamos?”, insistiu, defendendo a importância de dar espaço à ciência e ao conhecimento para a análise dos solos angolanos: “É preciso fazer correcção dos solos, é preciso fazer a fertilização dos solos”.

Isaac dos Anjos defendeu ainda ser preciso compreender “porque é que as pessoas cultivam um ano aqui, depois fazem derrubes para cultivar noutro espaço”, insistindo que a correcção dos solos deve ajudar igualmente a “sedentarizar as pessoas”. “É isso que dá progresso (…); enquanto continuarmos nómadas, não vamos atingir o que se pretende”, frisou — uma lógica que, segundo especialistas internacionais, tem sido também central em estratégias de modernização agrícola noutros países africanos, como o Ruanda, apontado como exemplo de sucesso na implementação de sistemas de gestão integrada da terra.

O ministro revelou também que Angola tem necessidade de 180 mil toneladas de fertilizantes por ano e “luta” anualmente para atingir pelo menos as 170 mil toneladas — um dado que reforça o diagnóstico de baixa intensidade agrícola face ao potencial de terra disponível.

30,4 milhões de toneladas produzidas na última campanha

Nesta audição de quase uma hora, Isaac dos Anjos revelou também que o país atingiu os 30,4 milhões de toneladas de produção agrícola na época 2024-2025, período em que foram registadas 3,5 milhões de explorações agrícolas. “E 5,5 milhões de explorações agrícolas foram atendidas [nesse período]. A nossa cobertura florestal ficou nos 69,3 milhões de hectares e o nosso contributo ao PIB [Produto Interno Bruto] ficou fixado em 23%”, referiu.

O ministro anunciou igualmente que a estrutura produtiva angolana continua a ser ocupada, em grande escala, pela produção manual (66%), seguida pela tracção animal, com 28%, e pela mecanização, com apenas 6% — um contraste marcante face à realidade de países como o Egipto, o Quénia ou a África do Sul, onde a mecanização agrícola tem avançado de forma mais consistente nas últimas décadas, ainda que a produtividade média do milho em toda a África continue a situar-se nas 2,2 toneladas por hectare, muito abaixo das 10 a 12 toneladas por hectare alcançadas em sistemas agrícolas mais tecnificados a nível mundial.

A estrutura de organização rural angolana contava, entre 2024 e 2025, com 2.823 cooperativas.

Suspensão da importação de frango e suínos “impulsionou produção interna”

Aos deputados, o ministro da Agricultura e Florestas de Angola revelou também que o país produziu, em 2025, um total de 163 mil toneladas de carne de caprino, 115 mil toneladas de carne bovina, 64 mil toneladas de frango e 13.340 toneladas de carne suína.

Isaac dos Anjos salientou que, apesar da referida produção, ainda se levantam questões sobre a relação entre importação e produção local de carne, referindo, contudo, que a suspensão da importação de partes de frango e de suínos impulsionou a produção interna — um sinal, segundo o ministro, de que Angola tem capacidade para reduzir progressivamente a sua dependência de importações agropecuárias, desde que consiga resolver os estrangulamentos estruturais que hoje limitam o aproveitamento efectivo das suas terras aráveis.

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