Regresso ao mercado de dívida em dólares, cinco anos depois, surge poucos meses depois de o banco ter rompido com a Fitch e recuperado o grau de investimento junto da S&P
O Banco Africano de Exportação e Importação (Afreximbank) concluiu esta terça-feira a sua maior emissão de obrigações de sempre, no valor de 1.500 milhões de dólares, com a carteira de encomendas a atingir um máximo de 3.800 milhões de dólares — um sinal de forte procura internacional pela dívida da instituição, apesar de um contexto global de rendimentos elevados.
A operação, realizada em duas tranches, marca a primeira emissão pública de obrigações em dólares da instituição desde Julho de 2021. A primeira tranche, no valor de 750 milhões de dólares, tem um prazo de 5,5 anos, com vencimento em Janeiro de 2032; a segunda, também de 750 milhões de dólares, tem um prazo de dez anos, com vencimento em Julho de 2036.
Procura duas vezes superior à oferta
A instituição detalhou que a operação registou uma procura quase duas vezes superior à oferta disponível, tendo “atraído uma forte procura por parte de investidores internacionais do Reino Unido, Europa, Ásia e Estados Unidos”, com a procura repartida de forma equilibrada entre as duas tranches.
Impulsionado pela elevada procura dos investidores, o Afreximbank conseguiu reduzir em 37,5 pontos base a taxa de juro de ambas as tranches, fixando-as em 6,25% para a emissão a 5,5 anos e em 7,125% para a de dez anos — condições consideradas competitivas para uma instituição multilateral africana, num momento em que os rendimentos da dívida a nível global se mantêm historicamente elevados.
“Esta emissão bem-sucedida demonstra a confiança que os investidores continuam a depositar no Afreximbank e na trajectória de crescimento de África”, afirmou, em comunicado, o director-geral de Tesouraria e Mercados do Afreximbank e Tesoureiro do Grupo, Chandi Mwenebungu, sublinhando que o papel do banco “continua a ser o de ligar o capital às oportunidades que impulsionarão o comércio, a industrialização e o crescimento em todo o continente”. A operação foi coordenada pelo HSBC, com o Standard Bank da África do Sul, o Standard Chartered, o Commerzbank e a MUFG Securities EMEA como gestores conjuntos.
Um regresso ao mercado que sucede a um período de turbulência na notação de risco
O sucesso desta emissão ganha um significado particular à luz do percurso recente do Afreximbank junto das agências de notação financeira. Em Janeiro deste ano, a Fitch Ratings desceu a notação da instituição para “BB+” — estatuto de “lixo” (junk) —, citando preocupações associadas ao papel do banco na reestruturação da dívida do Gana e da Zâmbia. O Afreximbank reagiu de forma pouco habitual: rompeu relações com a Fitch, acusando a agência de “já não reflectir uma boa compreensão” da missão e do mandato da instituição, uma posição que viria a ser corroborada pelo Mecanismo Africano de Revisão de Pares (APRM), que identificou falhas na metodologia usada pela agência.
A situação viria a inverter-se em Junho, quando a S&P Global restituiu ao Afreximbank a notação de grau de investimento “BBB+”, com perspectiva estável — a primeira avaliação da agência à instituição em quase 12 anos, e um nível acima da notação “Baa2” atribuída pela Moody’s. No final de Dezembro de 2025, os activos totais e contingências do Afreximbank ascendiam a mais de 48.500 milhões de dólares, com fundos próprios de 8.400 milhões de dólares.
Na mesma nota, o banco recordou que o regresso ao mercado de obrigações públicas em dólares sucede a várias emissões realizadas nos últimos anos noutros formatos e moedas, incluindo obrigações Samurai (em ienes japoneses), em 2024 e 2025, e obrigações Panda (em yuan chinês), em 2025 — operações que, em conjunto, renderam ao banco mais de 800 milhões de dólares só no ano passado. A instituição tinha ainda concluído, em Março deste ano, um empréstimo sindicado de dois mil milhões de dólares, também ele sobre-subscrito.
Um banco central para o comércio africano
Sediado no Cairo, no Egipto, o Afreximbank é uma instituição financeira multilateral criada em 1993 para financiar e promover o comércio intra-africano e extra-africano, desempenhando um papel cada vez mais central na arquitectura financeira do continente — nomeadamente através de mecanismos como a Africa Trade Gateway, plataforma que facilita transacções comerciais transfronteiriças entre países africanos. O sucesso desta nova emissão reforça a capacidade do banco para continuar a financiar projectos de comércio, industrialização e crescimento em toda África, numa altura em que vários países do continente — incluindo Angola — têm procurado diversificar as suas próprias fontes de financiamento internacional, num contexto de custos de crédito globalmente mais elevados para as economias africanas.