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Hakeem Jeffries, o bisneto de Manuel Gomes que vai presidir à Câmara dos Representantes

Com a vitória democrata nas intercalares, Hakeem Jeffries deverá tornar-se em Janeiro o primeiro afro-americano a liderar a Câmara dos Representantes e a terceira figura do Estado norte-americano. Nas suas raízes está a ilha do Fogo, de onde um bisavô partiu para os Estados Unidos há mais de um século. Em Washington, terá a tarefa de travar Donald Trump nos últimos dois anos do mandato.

Na noite eleitoral, os apoiantes já gritavam “Speaker Jeffries!” antes da meia-noite. Hakeem Jeffries entrou ao som de “Unbelievable”, de Notorious B.I.G., e declarou: “A América está de volta”. Ao conquistarem a maioria na Câmara dos Representantes nas eleições intercalares de 3 de Novembro, os democratas abriram-lhe o caminho para a presidência da câmara baixa do Congresso.

Se for eleito, como se espera, quando o novo Congresso tomar posse, a 3 de Janeiro, Jeffries será o primeiro afro-americano a ocupar o cargo em 237 anos. Como presidente da Câmara, passará a ser o segundo na linha de sucessão presidencial, a seguir ao vice-presidente.

Na quarta-feira, lançou formalmente a candidatura numa carta aos colegas. “Temos agora de concretizar a mudança dramática que o povo americano exige”, escreveu.

Hakeem Sekou Jeffries nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, a 4 de Agosto de 1970. Advogado formado pela Universidade de Nova Iorque, foi eleito para o Congresso em 2012. Dez anos depois, sucedeu a Nancy Pelosi na liderança dos democratas na Câmara e tornou-se o primeiro negro a liderar um partido no Congresso norte-americano.

Conhecido pelo talento oratório e pelo gosto pelo hip-hop e por ténis de colecção, é hoje o mais alto responsável político negro eleito nos Estados Unidos.

A ilha do Fogo na árvore genealógica

Grande parte da família de Jeffries tem raízes antigas nos Estados Unidos, na Virgínia, na Geórgia e no Maryland. Mas um quarto da sua herança, contada a partir da geração dos bisavós, vem de Cabo Verde, segundo uma investigação da genealogista norte-americana Megan Smolenyak.

O bisavô Manuel Gomes chegou aos Estados Unidos em 1915, seguindo a rota de milhares de cabo-verdianos entre a ilha do Fogo e New Bedford, no Massachusetts, aberta pelos baleeiros da Nova Inglaterra no final do século XVIII.

Manuel Gomes trabalhou em fábricas de latão e nos caminhos-de-ferro, obteve a cidadania americana e criou um filho depois de ficar viúvo. Anos mais tarde, regressou à terra natal e morreu em São Filipe, no Fogo, em 1974, sete meses antes da independência de Cabo Verde. Hakeem Jeffries tinha então quatro anos. Gomes, Graça, Pereira e Pina estão entre os apelidos da família.

Do lado paterno, a genealogista encontrou um trisavô, William Fears, que viveu escravizado cerca de 40 anos no condado de Jasper, na Geórgia, e se recenseou para votar a 6 de Julho de 1867.

Jeffries é o único membro do Congresso com ascendência cabo-verdiana. Em Setembro de 2025, apresentou com o senador Ed Markey uma resolução que assinalava os 50 anos da independência de Cabo Verde. Para o arquipélago, a chegada de um descendente de cabo-verdianos ao terceiro cargo do Estado norte-americano é uma referência sem precedentes.

Na carta de candidatura, Jeffries definiu três prioridades: o custo de vida, a responsabilização e os valores americanos. Prometeu uma agenda para os primeiros 100 dias centrada na habitação, educação, saúde e reformas, e anunciou investigações à administração Trump. Na noite eleitoral, prometeu “exigir responsabilidades àqueles que impuseram a este país uma corrupção sem precedentes”.

Ao mesmo tempo, garantiu que os democratas procurarão terreno comum com os republicanos. Jeffries tem um precedente: durante o primeiro mandato de Trump, liderou a aprovação da First Step Act, uma reforma bipartidária da justiça penal negociada com Jared Kushner, genro do Presidente.

Os desafios do novo cargo

O apoio interno à sua eleição é amplo, mas não necessariamente profundo, segundo a revista Time. Jeffries terá de gerir uma ala esquerda em crescimento, próxima dos Socialistas Democráticos da América, e os moderados que temem propostas como o seguro de saúde universal. A posição sobre Israel, de que é apoiante de longa data, é outro ponto sensível.

Sobre a nova Câmara paira ainda a questão de um eventual terceiro processo de destituição de Trump.

O Presidente, por seu lado, admitiu aceitar os resultados e disse ao New York Times que “provavelmente” chegará a entendimentos com os democratas. Com o Congresso nas mãos da oposição, Trump enfrenta um poder legislativo hostil nos dois últimos anos do mandato. Na liderança desse contrapoder estará o bisneto de Manuel Gomes.

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