O peso do sector agropecuário na economia angolana quase duplicou numa década, garantiu o ministro de Estado para a Coordenação Económica. O dado é central para a luta contra a inflação, porque mais de metade do índice de preços depende da alimentação. Mas parte do salto deve-se a uma revisão estatística, e o investimento público no sector tem caído.
O peso do sector agropecuário no produto interno bruto (PIB) de Angola situa-se actualmente em cerca de 23%, quase o dobro de há dez anos, afirmou na quinta-feira o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano.
“Embora as exportações petrolíferas continuem a dominar a geração de recursos cambiais, o sector agropecuário tem demonstrado um crescimento assinalável”, disse o governante, no encerramento da Conferência Internacional sobre Desinflação Sustentável e Credibilidade da Política Monetária, que assinalou os 50 anos do Banco Nacional de Angola (BNA).
Para Massano, o dado é decisivo para a política monetária: cerca de 56% do Índice de Preços no Consumidor em Angola tem origem nos bens alimentares e nas bebidas não alcoólicas. Também o segmento alimentar representa 58% da indústria transformadora.
“Isto significa que a transformação estrutural em curso na nossa economia sustenta o caminho para a consolidação da desinflação”, afirmou o ministro, defendendo incentivos e estímulos públicos contínuos para atrair investimento para a agricultura, a indústria transformadora e as infra-estruturas.
Do 13% ao 25%, ou ao 23%
Os números oficiais não são inteiramente coincidentes. Em Maio, numa intervenção em Nairobi, Massano tinha afirmado que o sector duplicara o seu peso na economia, passando de 13,66% do PIB em 2015 para 25,43% em 2025, o que faria da agricultura o maior contribuinte para a economia, à frente do petróleo.
Parte desse salto tem uma explicação estatística. Em 2025, o Instituto Nacional de Estatística (INE) actualizou a metodologia das contas nacionais e mudou o ano de referência do PIB para 2015. A revisão retirou o petróleo do primeiro lugar entre os sectores com mais peso na economia e duplicou o peso da agro-pecuária.
A produção agrícola também cresceu. Segundo o Governo, ultrapassou 30,4 milhões de toneladas na campanha 2024/25, mais 8,5% do que na anterior, com destaque para o milho, o trigo, a mandioca, a batata-doce, as hortícolas, a fruta e o café comercial. O Executivo conta ainda com a entrada em funcionamento, em 2027, da primeira fábrica de amoníaco e ureia para produção nacional de fertilizantes.
Menos fertilizantes e quase nenhum seguro
O entusiasmo oficial contrasta, porém, com as escolhas orçamentais. Este ano, o investimento na compra de fertilizantes para a agricultura familiar caiu 76% face ao ano anterior, e a verba do Orçamento Geral do Estado destinada ao sector também foi reduzida.
O sector continua igualmente quase sem protecção financeira. O seguro agrícola tem uma expressão residual, com apenas 78 milhões de kwanzas em prémios e uma taxa de sinistralidade de 290,8%. Milhares de produtores continuam expostos às secas, às pragas e a outros riscos que podem deitar a perder uma campanha.