O mercado dos fundos de investimento tem um vasto espaço de crescimento em Angola, superando os tradicionais depósitos a prazo em termos de rentabilidade e flexibilidade, defende o CEO da Standard Gestão de Activos (SGA). Em entrevista ao Mercado poucos dias após o lançamento do sexto fundo com a marca Standard – Standard Rendimento Top – que captou mais de 5,1 mil mihões em Kz e 260 novos subscritores, António Catana não esconde o optimismo. Fechado que está um ciclo de privatizações, cabe agora aos privados protagonizarem novas operações na BODIVA. A dívida pública deverá ser o principal driver do mercado nos próximos 12 meses, diz o CEO.
O Standard Rendimento Top surgiu num momento de crescente interesse pelo mercado de capitais. Como correu a subscrição?
A subscrição do Standard Rendimento TOP [que decorreu entre 8 e 29 de Outubro) atingiu o seu principal objectivo, que era partilhar com os angolanos uma nova oportunidade detectada no nosso mercado de capitais. Com o lançamento do nono fundo da SGA, conseguimos captar um valor adicional de 5.166.310.000 kwanzas de activos sob gestão e 260 novos subscritores.
Qual o perfil dos investidores?
Este Fundo mantem o padrão dos fundos anteriores da SGA, com a larga maioria dos investidores sendo particulares e o maior montante a ser subscrito por clientes institucionais.
O fundo promete uma carteira diversificada. Quais são os principais activos que irão suportar a estratégia de investimento e como é gerido o equilíbrio entre rentabilidade e risco?
A dívida pública angolana estará no centro da estratégia de investimento do Fundo, constituindo a principal fonte de exposição da carteira. Pontualmente, poderão também surgir oportunidades em dívida corporativa, que pretendemos aproveitar de forma selectiva. O mercado de dívida corporativa em Angola encontra-se ainda numa fase de desenvolvimento e, por isso, não esperamos que represente um peso relevante na carteira, mas poderá contribuir para diversificar fontes de retorno quando existirem emissões com condições atractivas. Sendo um fundo fechado com um horizonte de três anos, a equipa de gestão dispõe de maior flexibilidade para seleccionar maturidades e ajustar activamente a carteira em função da evolução das taxas e das condições de mercado. O equilíbrio entre rentabilidade e risco resulta da análise contínua das taxas disponíveis, maturidades, qualidade de crédito dos emitentes e condições de mercado, procurando optimizar a relação risco-retorno dentro dos limites definidos na política de investimento.
Que expectativas de rentabilidade podem os investidores razoavelmente associar ao Standard Rendimento Top? Em que pressupostos assentam essas projecções?
O Fundo Standard Rendimento TOP tem como objectivo atingir uma rentabilidade superior à dos depósitos a prazo de maior maturidade e à que resulta do investimento directo em obrigações com a mesma maturidade do fundo. A rentabilidade a atingir estará dependente das oportunidades que surjam no mercado e na capacidade da equipa de investimentos da SGA em
concretizá-las. Estamos muito confiantes na sua concretização efectiva, tal como tem sucedido desde o início da SGA.
Quais são os principais riscos que podem afectar a performance do fundo até à maturidade?
Os principais riscos estão relacionados com a evolução das taxas de juro e com o risco de crédito.
Num Fundo com uma exposição relevante a instrumentos de dívida, a evolução das taxas de juro tem impacto directo sobre o valor de mercado dos títulos. Em termos gerais, uma subida das taxas tende a pressionar o preço das obrigações já existentes, enquanto uma descida das taxas pode criar oportunidades de valorização. Por isso, a selecção das maturidades e o momento de entrada nos diferentes instrumentos são elementos importantes da gestão da carteira.
No que respeita ao risco de crédito, e considerando que a dívida pública deverá representar a principal exposição do Fundo, o foco estará sobretudo na capacidade de o Estado angolano cumprir atempadamente as suas obrigações financeiras. Este risco é acompanhado através da análise da evolução das contas públicas, da posição fiscal, do perfil da dívida e das condições macroeconómicas que possam afectar a capacidade de pagamento do Estado.
A gestão destes riscos é feita de forma contínua, através do acompanhamento das condições de mercado, da estrutura de maturidades da carteira e da evolução do perfil de crédito dos principais emitentes, permitindo ajustar o posicionamento sempre que necessário e dentro dos limites definidos na política de investimento do Fundo.
Qual será, na sua opinião, o principal driver de crescimento do mercado nos próximos 12 meses: privatizações, dívida pública, dívida corporativa?
Acreditamos que a dívida pública continuará a ser o principal segmento a ser transaccionado na BODIVA e onde se concentrarão as melhores oportunidades do mercado. Tendo terminado a actual plano de privatizações, caberá ao sector privado dar o próximo passo no sentido de avançar com novas emissões quer de acções, quer também de obrigações. Sentimos que é um processo que estará ainda no seu início, pelo que temos uma expectativa prudente quanto à sua possível concretização nos próximos 12 meses.
É expectável que os angolanos venham a preferir investir em instrumentos do mercado de capitais, ou o apelo dos depósitos a prazo ainda é forte?
Estamos no início de um processo em que está a ficar cada vez mais claro que os fundos de investimento oferecem melhor potencial de rentabilidade e maior flexibilidade do que os instrumentos bancários tradicionais. Os fundos de investimento representam actualmente cerca de 4% dos depósitos bancários em Angola e o potencial de crescimento é enorme quando comparamos com outros mercados em África.
Como tem sido a rentabilidade dos vossos fundos?
Actualmente a SGA gere cinco fundos de investimento com a marca Standard: Um fundo de curto prazo, o Standard Tesouraria, que tem uma rentabilidade líquida desde o seu lançamento de 11,78%; três fundos de obrigações, o Standard Rendimento, o Standard Obrigações e o Standard Rendimento+, com rentabilidades, respectivamente, de 23,31%, 20,85% e 25,03%; e um fundo misto, o Standard Valor, com uma rentabilidade líquida desde o seu inicio de 31,97%.
Que novas soluções ou classes de activos deverão ganhar relevância na estratégia da SGA no próximo ano?
Estamos a trabalhar activamente em novas soluções para continuarmos a servir os nossos clientes. No entanto, o seu lançamento estará sempre dependente de termos conseguido reunir todas as condições para as implementarmos. A SGA não faz experiência com o dinheiro dos seus clientes. Só avançaremos com novos produtos se conseguirmos manter o elevado padrão de qualidade de todos os outros produtos que temos lançado.
Em que é que a SGA se diferencia das concorrentes?
A SGA trouxe várias inovações para o nosso mercado, que fizeram toda a diferença na hora de conquistarmos a confiança dos angolanos, tal como demonstra o valor total dos activos sob gestão, de 166 mil milhões, mais de 2000 participantes e a liderança da indústria dos fundos de investimento mobiliário em Angola:
– a disponibilização de uma solução digital, através da nossa App para clientes particulares e do nosso Portal de Cliente para clientes corporativos
– a disponibilização de fundos abertos que vieram permitir a subscrição, reforço e resgate permanente para os nossos clientes
– a simplicidade de o cliente poder continuar a usar a sua conta bancária habitual
– uma oferta completa de fundos abertos e fechados, que permite ao cliente seleccionar o fundo ou os fundos que melhor se adequam ao seu perfil de investidor
– a gestão activa de todos os nossos fundos sob gestão, que se traduz numa participação muito relevante na BODIVA, com uma quota de mercado em 2026 superior aos 5%
– a parceria com várias entidades bancárias e de intermediação, fundamental para conseguirmos chegar cada vez mais a um maior número de angolanos.
Como avalia o actual ecossistema de stakeholders do mercado de capitais?
Como dizia, o nosso mercado encontra-se ainda numa fase muito embrionária. Antes de passarmos a uma fase activa de captar investidores estrangeiros, há que aumentar o nível de participação dos nossos investidores no nosso mercado, seja participando directamente na BODIVA, quer através de fundos de investimento, para aumentarmos a profundidade e o nível de liquidez do nosso mercado. Temos muito espaço para crescermos quer em termos de investidores, quer em termos de montante investido dos actuais participantes, de entre os quais destacamos os fundos de pensões, como investidor preferencial de longo prazo.
Que sectores da economia angolana deverão oferecer as oportunidades mais interessantes para investidores no médio prazo?
Do ponto de vista do investidor, acreditamos que uma das maiores oportunidades estará no próprio aprofundamento e diversificação do mercado de capitais angolano.
Nos últimos anos assistimos a um aumento gradual do número de empresas cotadas e a uma maior diversidade de sectores representados em bolsa. No médio prazo, a continuidade deste processo deverá permitir aos investidores aceder a novas oportunidades em sectores como serviços financeiros, telecomunicações, indústria e recursos minerais, entre outros.
Também vemos espaço para o crescimento do mercado de dívida corporativa, à medida que mais empresas recorrem ao mercado de capitais como alternativa de financiamento.
Para nós, enquanto gestores de activos, o mais relevante será o aumento do universo de instrumentos disponíveis. Um mercado mais profundo e diversificado permite construir carteiras mais completas, melhorar a diversificação e seleccionar oportunidades com base nos fundamentos, na rentabilidade esperada e no risco de cada investimento.
Por isso, mais do que destacar um único sector, acreditamos que a grande oportunidade dos próximos anos estará na expansão do próprio mercado de capitais e na entrada de novos emitentes, instrumentos e investidores.
Por: Ricardo David Lopes