Criada pelo BAI e pela norueguesa Norfund para levar capital de risco às pequenas e médias empresas angolanas, a Angola Capital Partners mobilizou mais de 85 milhões de dólares e sobreviveu à crise de 2016. Agora, Adolosi Gomes assume a liderança.
No final da década de 1990, Angola era um país onde quase ninguém queria arriscar capital. A primeira missão da Norfund ao país, em 1998, decorreu num cenário de grave instabilidade macroeconómica e inflação elevada. A guerra civil ainda não tinha terminado, e quem tinha uma pequena empresa e ambição para crescer sabia que o banco pouco mais lhe podia oferecer do que crédito de curto prazo.
Foi esse vazio que a instituição norueguesa de financiamento ao desenvolvimento quis medir. Em 2001, a Norfund lançou um estudo de viabilidade para criar um fundo de capital de risco em Angola, concluindo que a falta de capital de longo prazo era um dos principais entraves ao desenvolvimento do sector privado — não foi identificado no país qualquer fundo do género.
Faltava um parceiro local. A escolha recaiu sobre o Banco Angolano de Investimentos (BAI), então designado Banco Africano de Investimentos, e as duas instituições assinaram em 2002 uma carta de intenções para criarem juntas uma sociedade gestora e lançarem um fundo de private equity.
Quase duas décadas depois de ter sido formalmente constituída, em 2008, a Angola Capital Partners (ACP) vira agora uma página: Adolosi Gomes foi nomeado presidente da Comissão Executiva, sucedendo a Tiago Laranjeiro, que liderou a sociedade até agora e se mantém na estrutura como administrador para acompanhar a transição.
Um fundo lançado em plena crise financeira
Convencer investidores internacionais a apostar em Angola não foi fácil. Quando o conceito foi apresentado a instituições de financiamento ao desenvolvimento, muitas manifestaram reservas sobre o ambiente de investimento no país.
Ainda assim, em plena ressaca da crise financeira global, o Fundo de Investimento Privado Angola (FIPA) arrancou. O primeiro fecho aconteceu em Março de 2010, com 28 milhões de dólares comprometidos por cinco investidores: a Norfund, o BAI, o Banco Europeu de Investimento (BEI), o Banco Privado Atlântico e o IFU, a instituição dinamarquesa de financiamento ao desenvolvimento. A agência espanhola MAEC juntou-se em 2011 e o fundo atingiu 39 milhões de dólares.
A ambição inicial era maior: o BEI previa uma capitalização-alvo de 100 milhões de dólares. Mas o FIPA ficou para a história como o primeiro fundo de private equity em Angola dirigido a pequenas e médias empresas locais, estabelecidas ou em fase de arranque.
Na altura, Tiago Laranjeiro, o gestor português que fundou e dirigiu a ACP, sublinhava que os sectores fora do petróleo tinham especial necessidade de capital para crescer.
Os primeiros anos foram promissores. O FIPA I registou taxas internas de rentabilidade superiores a 30% na fase inicial, mas sofreu perdas significativas no momento das saídas, devido à crise de 2016 e à forte depreciação da moeda.
A queda do preço do petróleo, que arrastou o kwanza e a economia angolana, transformou-se numa lição dura. Em vez de recuar, a ACP voltou ao mercado. O segundo fundo, lançado em 2016 com 47,5 milhões de dólares, investiu deliberadamente durante a recessão, procurando oportunidades subvalorizadas e modelos de negócio exportadores, mais resistentes aos choques internos. Em 2025, o valor líquido dos activos do FIPA II tinha quase duplicado.
Ao todo, a sociedade mobilizou desde a sua constituição mais de 85 milhões de dólares, canalizados para empresas angolanas de diferentes sectores.
Das hortas à gestão de resíduos petrolíferos
O retrato da carteira mostra a aposta na diversificação da economia. Em 2014, o FIPA investiu na Angola Environmental Serviços (AES), especializada na gestão de resíduos da indústria petrolífera. Em 2015, entrou na Fazenda Girassol, produtora e distribuidora de legumes, fruta e ervas frescas.
Seguiram-se, entre outras, a Orey África, de logística e transportes, e a Betablocos, de materiais de construção, bem como a African Selection Trust, uma operação de pesca integrada.
O modelo vai além do dinheiro. A ACP exclui investimentos em mineração, armamento, tabaco e álcool e acompanha as empresas participadas em áreas como a estratégia, a governação e a gestão financeira.
A passagem de testemunho não foi improvisada. A nomeação concretiza uma intenção assumida desde a criação da ACP: promover a transferência de conhecimento e preparar uma liderança angolana.
O presidente do Conselho de Administração da ACP, Paal Raaum, afirmou que a nomeação resulta de um processo de sucessão cuidadosamente planeado e reflecte a confiança da administração na equipa.
A estrutura accionista mantém o equilíbrio original. O BAI e a Norfund detêm cada um 47,5% do capital da sociedade, estando os restantes 5% distribuídos pelos órgãos de gestão.
Quem é o novo CEO
Adolosi Gomes conhece a casa por dentro. Está na ACP há mais de oito anos, a trabalhar nos investimentos do FIPA I e do FIPA II, nas estruturas do Luxemburgo e de Angola, depois de ter sido analista sénior de serviços financeiros na Deloitte, em Angola. É licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade Autónoma Portuguesa e mestre em Economia e Finanças pela Universidade Católica Portuguesa.
Antes de assumir a presidência executiva, era o responsável pelos investimentos e pela gestão da carteira. Numa entrevista concedida no ano passado, resumiu a experiência dos dois fundos numa frase: “o momento e a criação de valor são tudo”.
Para Adolosi Gomes, num mercado pequeno, os negócios nascem da confiança. A ACP recorre sobretudo a relações com bancos locais, advogados e empresários para encontrar oportunidades, num ecossistema empresarial concentrado e com poucas empresas preparadas para receber investimento.
O desafio que se segue
A missão continua actual. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o crédito bancário ao sector privado representou cerca de 6% do produto interno bruto angolano em 2024 e 2025, o que mostra quão estreito continua a ser o acesso ao financiamento para as empresas.
Na sua primeira declaração como CEO, Adolosi Gomes classificou a nomeação como uma honra e um desafio, apontando como prioridade continuar a apoiar empresas angolanas com capital de longo prazo e atrair novos investidores, nacionais e internacionais.
O mercado já não é o deserto de 1998. Durante mais de uma década, a ACP foi a única gestora de private equity dedicada exclusivamente a Angola, mas começam agora a surgir alguns novos concorrentes. Caberá à nova liderança provar que o pioneiro continua a ser a referência.