O fim das negociações entre a Galp e a Moeve é uma meia victória para a Sonangol, que nunca viu com bons olhos um negócio que entregava a refinaria de Sines a fundos estrangeiros. Mas, dentro da Amorim Energia, a última palavra continua a não ser de Luanda.
Há vitórias que se ganham sem disparar um tiro. A da Sonangol sobre o casamento entre a Galp e a Moeve é uma delas, ou meia. A petrolífera angolana, que detém indirectamente cerca de 17% da empresa portuguesa, nunca se pronunciou oficialmente sobre a parceria. Também nunca a quis. Na segunda-feira, o negócio caiu.
A explicação oficial veio de Paula Amorim, presidente do Conselho de Administração da Galp: as partes “não conseguiram alcançar o alinhamento comercial necessário para estabelecer uma parceria duradoura e geradora de valor a longo prazo”. É uma explicação admissível. Mas convive com outra, menos dita: a de que a Sonangol, liderada por Sebastião Gaspar Martins, considerava um erro que a Galp abdicasse do controlo de Sines.
O plano, anunciado em Janeiro, previa duas plataformas. Uma de retalho, com os postos de abastecimento, detida a meias pelas duas empresas. Outra de refinação, onde a Galp ficaria com apenas 20%. Do outro lado da mesa estava a Moeve, a antiga Cepsa, detida maioritariamente pelo fundo soberano de Abu Dhabi, a Mubadala, com 38% nas mãos do norte-americano Carlyle Group. A Sonangol soube tarde da parceria e não gostou do que soube.
Uma história com muitos capítulos
Não é o primeiro desencontro entre os dois accionistas de referência da Amorim Energia, a holding que controla 37,51% dos direitos de voto da Galp e que é detida a 55% pelo grupo Amorim e a 45% pela Esperaza, sociedade com sede nos Países Baixos controlada pela Sonangol. O encerramento da refinaria de Matosinhos, em 2021, já tinha merecido reservas de Luanda. Desta vez, segundo o Jornal de Negócios, foram oferecidas aos angolanos algumas soluções, sobretudo financeiras, que lhes garantiriam bons retornos. Não chegou.
Em Angola, a leitura foi mais política do que financeira. A 16 de Outubro, o jurista Rui Verde, fundador da Angola Research Network e consultor do Maka Angola, escrevia que a parceria representava “mais um passo na erosão da capacidade de influência de Angola nos centros de decisão energética europeus”. “Na realidade, trata-se de uma transferência de poder”, acrescentava. A refinação, ligada às infra-estruturas estratégicas e à segurança energética dos Estados, passaria “para a esfera de influência de fundos internacionais cuja prioridade é a maximização do retorno financeiro”. E deixava o diagnóstico mais duro: “A questão é a incapacidade da Sonangol para definir e defender uma visão estratégica de longo prazo.”
A ironia é que a Sonangol ganhou sem ter de definir coisa nenhuma. Não precisou de vetar, nem de negociar, nem sequer de falar. O negócio caiu por falta de acordo comercial, e Sines continua na Galp, onde Angola tem uma palavra a dizer.
Mas convém não confundir sorte com estratégia. A incompatibilidade entre os dois accionistas da Amorim Energia é um segredo de polichinelo e, com 55% da holding, o grupo Amorim terá sempre ascendente sobre a Sonangol na definição do futuro da Galp. A Galp já disse que continua aberta “a futuras oportunidades de consolidação do sector”. Da próxima vez, Luanda poderá não ter a mesma sorte. A questão que Rui Verde levantou continua por responder: o que quer a Sonangol, afinal, fazer com a sua posição na Galp?