Ministro da Energia saudita garante que a palavra “medo” não existe no dicionário do reino, numa conferência boicotada por grandes petrolíferas. A duas semanas da principal cimeira de investimento do país, o aeroporto da capital continua fechado.
“A palavra medo não existe no dicionário saudita”. A frase é do ministro da Energia da Arábia Saudita, o príncipe Abdulaziz bin Salman, e foi dita na segunda-feira no Congresso Mundial do Petróleo, em Riade. Vários dos principais executivos petrolíferos faltaram ao encontro, depois de uma série de ataques dos rebeldes Houthis do Iémen contra o aeroporto da capital.
O ministro garantiu que o reino vai continuar a cumprir os seus objectivos económicos e a investir em infra-estruturas energéticas, capacidade industrial e parcerias internacionais. Afirmou também que a Arábia Saudita foi posta à prova e que dará uma resposta igualmente séria. A britânica BP retirou-se do congresso depois dos ataques. Segundo a correspondente da Semafor em Riade, os esforços sauditas para transmitir uma imagem de normalidade parecem cada vez mais forçados.
Aeroporto atingido quatro vezes em cinco dias
O Aeroporto Internacional Rei Khalid foi atingido quatro vezes em cinco dias. O ataque mais mortífero, no sábado, matou 13 pessoas e feriu mais de 300. Foi o pior ataque no país desde o início da guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, no final de Fevereiro. No domingo, um novo projéctil atingiu os terminais 3 e 4, matou uma pessoa e feriu 11. Na última semana, os ataques fizeram pelo menos 20 mortos e centenas de feridos.
O aeroporto está fechado desde sábado e deverá permanecer encerrado pelo menos até 17 de Outubro, com centenas de voos cancelados. Os Houthisavisaram companhias aéreas, passageiros e trabalhadores para se manterem afastados dos aeroportos sauditas. Dizem que os ataques respondem à intensificação da campanha aérea saudita no Iémen. Na segunda-feira, Riade afirmou ter interceptado mais três mísseis balísticos.
Várias embaixadas, incluindo as dos EUA, do Reino Unido, da Irlanda e do Canadá, emitiram alertas aos seus cidadãos. A missão norte-americana recomendou que evitem o aeroporto e as zonas envolventes. O Presidente Donald Trump disse estar a ponderar juntar-se aos bombardeamentos sauditas contra os Houthis, depois de ter resistido aos pedidos de Riade para uma intervenção militar directa.
“Davos do deserto” em risco
A crise atinge a estratégia do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para atrair investimento estrangeiro e turismo. A Future Investment Initiative(FII), a principal cimeira económica do reino, conhecida como “Davos do deserto”, celebra a décima edição entre 26 e 29 de Outubro. Os organizadores garantem que o evento se mantém, mas as opções de viagem para os participantes são limitadas.
A Delta Air Lines tinha marcado para 23 de Outubro o voo inaugural da ligação directa entre Atlanta e Riade, a primeira de uma companhia norte-americana em décadas, a tempo da FII. A empresa adiou entretanto os planos. O presidente executivo, Ed Bastian, já tinha dito que a decisão caberia ao departamento de segurança da companhia.
A Arábia Saudita tem investido fortemente em projectos de tecnologia e inteligência artificial em todo o mundo. Por isso, notou o Wall Street Journal, a forma como responder a esta crise terá consequências muito para lá do reino.