Sector cresce mais de 140.000% num ano e financia indústria farmacêutica, agro-processamento e transportes
Luanda, 25 de Agosto de 2026 – O mercado de capitais angolano está a viver uma transformação silenciosa, mas profunda. Enquanto as obrigações do Tesouro continuam a dominar as negociações na BODIVA, um segmento até aqui praticamente invisível está a ganhar um protagonismo inesperado: o Capital de Risco.
Segundo o relatório do segundo trimestre de 2026, divulgado pela Comissão do Mercado de Capitais (CMC), o volume de negociação no segmento de aquisição de títulos (MBTT) disparou de insignificantes Kz 0,29 mil milhões para Kz 401,98 mil milhões – um crescimento astronómico que ultrapassa os 140.000% em apenas doze meses. Este valor representa já mais de 22% do volume total transaccionado no mercado regulamentado.
Do papel à fábrica: Onde está a ser aplicado o capital
Ao contrário do que acontece com as obrigações, que financiam essencialmente a dívida pública, o capital de risco está a ser canalizado directamente para a economia real, financiando projectos estruturantes em sectores estratégicos:
Indústria Farmacêutica
A OVIHEMBA – Laboratórios Farmacêuticos, S.A., nascida de um investimento do GREENFIELD – FCR (gerido pela DELTAGEST CAPITAL – SGOIC), é um marco para a autonomia sanitária do País. Com um investimento aproximado de 5 milhões USD e inauguração prevista para o primeiro trimestre de 2026, a nova fábrica terá capacidade instalada para produzir 100 milhões de comprimidos por ano, começando pelo paracetamol e expandindo para antibióticos e outras linhas estratégicas.
Agro-Indústria e Sustentabilidade
A CAMPO VERDE – Sustentabilidade do Agronegócio, Lda., também financiada pelo GREENFIELD – FCR, está a colocar o agricultor no centro do desenvolvimento económico. Numa primeira fase, o fundo já trabalhou com 46 agricultores no Município do Longonjo (Comuna do Lepí) para a produção de 25 hectares de batata-rena.
Paralelamente, a FOODCARE, Lda., apoiada pelo Fundo KIMBO – FCR (gerido pela BFA Gestão de Activos – SGOIC), está a transformar a produção local. A empresa trabalha com produtos orgânicos e tradicionais – kizaca, muteta, cogumelos, manteiga de amendoim e farinhas – estruturando a produção para ganhar escala e alcançar mercados externos.
Tecnologia e Mobilidade Urbana
A ANDA, empresa de transporte por aplicativo de motocicletas, recebeu um investimento estratégico de crescimento do Fundo KIMBO – FCR. O investimento surge num “momento de inflexão”, em que a empresa tem registado uma procura muito superior à sua capacidade instalada, segundo o relatório da CMC.
Valorização da Indústria Diamantífera
O sector diamantífero ganhou novo impulso com o investimento do Fundo de Capital de Risco CAPITAL PLUS, gerido pela PROSPECTUM CAPITAL – SCVM, S.A., na C.K.K – Sociedade Industrial, uma empresa em ascensão dedicada à lapidação, transformação e valorização industrial do diamante nacional.
Serviços Sociais
A Laços Vivos – Assistência e Bem-Estar, S.A., financiada pelo Greenfield – FCR, dedica-se à prestação de serviços de acomodação assistida, reabilitação, cuidados continuados e actividades de integração para idosos, pessoas em recuperação e indivíduos que necessitam de apoio especializado.
O que isto significa para a economia
“O que estamos a testemunhar é a materialização do papel do mercado de capitais como motor de desenvolvimento”, explica fonte do Departamento de Estudos, Estratégia, Desenvolvimento e Comunicação da CMC. “O capital de risco está a financiar projectos que criam emprego, reduzem a dependência externa e geram valor acrescentado dentro do País.”
O crescimento do sector é acompanhado por uma diversificação da indústria de gestão de activos. Os Fundos de Capital de Risco (FCR) aumentaram a sua participação no activo total da Indústria dos OIC de 0,72% para 6,58% – um crescimento de quase 6 pontos percentuais. No total, estão registados 66 Organismos de Investimento Colectivo (OIC), dos quais 10 são Fundos de Capital de Risco e 1 Sociedade de Capital de Risco.
O que falta para consolidar o crescimento
Apesar do entusiasmo, os especialistas alertam para alguns desafios:
Maturidade financeira: A maioria dos investidores ainda desconhece as oportunidades e os riscos do capital de risco. O sector exige um horizonte de investimento mais longo e uma tolerância ao risco superior à das obrigações tradicionais.
Liquidez: O mercado de capital de risco é, por natureza, menos líquido que o mercado obrigacionista, o que pode afastar investidores mais conservadores.
Escala: Embora o crescimento tenha sido expressivo, o volume transaccionado neste segmento ainda representa uma fracção modesta do total do mercado.
Um novo capítulo para o investidor angolano
Para o investidor comum, o capital de risco representa uma porta de entrada para um universo até agora reservado a grandes instituições. Através dos fundos de investimento colectivo (OIC), é possível aceder a carteiras diversificadas de projectos empresariais com elevado potencial de crescimento.
O momento é particularmente auspicioso. O relatório da CMC mostra que o Valor Líquido Global (VLG) da indústria dos OIC cresceu 56,94% face ao período homólogo, atingindo Kz 1.907,24 mil milhões. As Sociedades Gestoras de Organismos de Investimento Colectivo (SGOIC) registaram aumentos expressivos nos activos sob gestão, com destaque para a Ohuasi Investment – SGOIC, S.A., que multiplicou os seus activos por 27 vezes (de Kz 5,81 mil milhões para Kz 157,06 mil milhões).