Ciência & Tecnologia

FDA aprova fármaco inovador que retarda a progressão do cancro do pâncreas

As autoridades reguladoras norte-americanas aprovaram esta quarta-feira um novo medicamento que retarda a progressão do cancro do pâncreas, um avanço terapêutico para uma doença que mata sete em cada oito doentes num período de cinco anos.

A Food and Drug Administration (FDA) aprovou o Rasonque (nome genérico daraxonrasib), um comprimido tomado uma vez por dia, desenvolvido pela empresa norte-americana Revolution Medicines (RevMed), sediada na Califórnia. O fármaco actua bloqueando múltiplas formas de uma proteína chamada RAS, um dos principais motores de crescimento tumoral na maioria dos doentes com adenocarcinoma pancreático, o tipo mais comum de cancro do pâncreas.

A aprovação baseou-se nos resultados do ensaio RASolute 302, um estudo aleatorizado de Fase 3 que envolveu 500 adultos com adenocarcinoma pancreático metastático previamente tratado. Os doentes que receberam Rasonque atingiram uma sobrevivência global mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses nos doentes submetidos à quimioterapia padrão — praticamente o dobro do tempo de sobrevivência.

O medicamento é indicado para adultos com adenocarcinoma pancreático metastático que já tenham sido submetidos a pelo menos um tratamento sistémico anterior, ou que não sejam candidatos a terapia sistémica multiagente. Não requer um teste de diagnóstico complementar e está aprovado tanto para doentes com como sem mutação identificada do gene RAS.

Uma doença historicamente difícil de tratar

O adenocarcinoma pancreático é a forma mais comum de cancro do pâncreas, representando entre 90% e 95% dos cerca de 67 mil novos casos diagnosticados anualmente nos Estados Unidos. Apesar de representar apenas cerca de 3,2% de todos os diagnósticos de cancro, a doença é responsável por uma fatia desproporcionalmente elevada das mortes por cancro, devido à detecção tardia, à evolução agressiva e às limitadas opções de tratamento disponíveis.

Segundo o comissário interino da FDA, Kyle Diamantas, a aprovação fornece uma nova opção crítica para doentes que enfrentam um cancro extraordinariamente difícil e historicamente resistente ao tratamento. É nosso dever fundamental disponibilizar mais curas e tratamentos significativos aos doentes o mais rapidamente possível.” A aprovação foi concedida seis meses e meio antes do prazo-limite estabelecido pela agência reguladora.

Citado pelo The Wall Street Journal, um oncologista descreveu o avanço como algo que “muda vidas”. Já Channing Der, farmacólogo da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, classificou a aprovação como “um momento monumental para o tratamento do cancro do pâncreas”, recordando que esta é a terceira principal causa de morte por cancro nos Estados Unidos e a mais letal de todas. “Isto é apenas o início de mais avanços que estão para vir”, escreveu Der.

Décadas à procura de uma solução

Investigadores passaram décadas a tentar visar um grupo de mutações denominado RAS, responsável por quase um terço de todos os cancros humanos, mas a forma achatada da proteína desafiava os fármacos convencionais. Os primeiros inibidores de RAS aprovados, comercializados pela Amgen e pela Bristol Myers Squibb, bloqueavam apenas uma mutação específica, designada KRAS G12C, actuando sobre a proteína no seu estado inactivo. A RevMed seguiu uma abordagem diferente, desenhando o seu fármaco para bloquear múltiplas formas de RAS no estado activo.

Para conseguir esse feito, a empresa desenvolveu uma nova “cola molecular”, capaz de se fixar a uma pequena cavidade da proteína — uma solução para um alvo terapêutico há muito considerado praticamente “indomável” pela indústria farmacêutica.

Efeitos secundários e potencial de mercado

Os efeitos secundários mais comuns do medicamento incluem erupção cutânea, diarreia, estomatite (inflamação das mucosas da boca), náuseas, fadiga, vómitos, dor abdominal, edema, perda de apetite e hemorragia. Segundo especialistas citados pela imprensa norte-americana, alguns doentes descreveram a erupção cutânea associada ao tratamento como particularmente intensa.

Apesar dos efeitos adversos, médicos que tratam esta doença acreditam que o fármaco poderá abrir caminho a novos avanços noutras formas de cancro, com dezenas de medicamentos experimentais actualmente em desenvolvimento. Uma empresa de análise farmacêutica prevê que o Rasonque possa gerar mais de 20 mil milhões de dólares em vendas anuais.

Ainda assim, especialistas sublinham que o medicamento não representa uma cura definitiva. “Isto não é uma cura, é mais uma opção para estes doentes”, afirmou o médico Pashtoon Kasi, do City of Hope Orange County, um centro oncológico californiano.

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