O director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, defendeu esta ontem, quinta-feira, dia 20, na Namíbia, o reforço da soberania sanitária dos países africanos e a redução da dependência do financiamento externo, numa altura em que os cortes na ajuda internacional ameaçam comprometer programas essenciais de saúde no continente.
A posição foi apresentada durante a reunião ministerial regional dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças de África (CDC África), agência de saúde pública da União Africana (UA), que decorre num contexto de forte redução do financiamento internacional destinado ao sector.
Tedros reconheceu os progressos registados por África nas últimas duas décadas e meia, destacando o aumento da esperança média de vida em mais de 10 anos, a redução da mortalidade materna em mais de um terço e a diminuição da mortalidade infantil para mais de metade.
“Os povos de África vivem mais tempo e têm vidas mais saudáveis do que nunca. Isto é motivo de celebração”, afirmou o responsável da OMS.
Apesar dos avanços, o continente continua a enfrentar desafios significativos, entre os quais o crescimento das doenças não transmissíveis e dos transtornos de saúde mental, as epidemias e pandemias, os efeitos das alterações climáticas e da poluição, a insegurança e os deslocamentos populacionais, a resistência aos antimicrobianos, a escassez de profissionais de saúde e as desigualdades no acesso aos serviços e produtos sanitários.
Para Tedros, estes problemas agravaram-se com a redução abrupta do financiamento internacional. Segundo indicadores referentes a 2025, a ajuda oficial ao desenvolvimento destinada à saúde terá diminuído cerca de 40 por cento.
O director-geral da OMS considera, contudo, que a crise pode representar uma oportunidade para os países africanos reduzirem a dependência externa e avançarem para um modelo de maior autonomia no financiamento e na produção de bens essenciais de saúde.
“A fonte mais eficiente e equitativa de financiamento em saúde é o orçamento nacional”, sustentou, defendendo que os governos procurem aumentar as receitas internas, nomeadamente através de impostos sobre o tabaco, o álcool e as bebidas açucaradas.
Tedros salientou igualmente a necessidade de ampliar a produção nacional e regional de medicamentos, vacinas e meios de diagnóstico. Na sua perspectiva, o reforço da capacidade produtiva africana não contribuirá apenas para a segurança sanitária, mas poderá também estimular o emprego, a inovação e o crescimento económico.
“Em última análise, a saúde não é um custo que deve ser contido. É um investimento nas pessoas, na estabilidade e na África que todos queremos”, afirmou.
Ébola expõe fragilidades
A actual epidemia de Ébola no leste da República Democrática do Congo (RDC) foi apresentada pelo director-geral da OMS como um exemplo concreto dos riscos associados à fragilidade dos sistemas de saúde e à dependência de financiamento externo.
A resposta à doença naquela região tem sido afectada pelos cortes no financiamento internacional, segundo alertas de especialistas e organizações que acompanham a evolução da epidemia.
“Esta epidemia de Ébola é um lembrete de que uma ameaça para um país é uma ameaça para todos”, afirmou Tedros, defendendo sistemas de saúde mais resilientes e auto-suficientes, aliados a uma maior solidariedade entre os países africanos.
A quinta reunião do Comité Directivo Ministerial Regional dos CDC África para a África Austral decorre num período marcado por fortes reduções da ajuda internacional, nomeadamente por parte dos Estados Unidos e de vários países europeus.
Perante este cenário, a OMS considera que África deverá acelerar os esforços para aumentar a mobilização de recursos internos, fortalecer os sistemas nacionais de saúde e desenvolver capacidades próprias de produção de medicamentos, vacinas e diagnósticos, como forma de reduzir a vulnerabilidade do continente perante futuras crises sanitárias.