Estados Unidos e Japão intervêm em conjunto para travar queda do iene e prometem agir de novo se necessário

 Estados Unidos e Japão intervêm em conjunto para travar queda do iene e prometem agir de novo se necessário

Depois de uma intervenção histórica no mercado cambial, líderes japoneses e norte-americanos garantem que voltarão a agir para evitar contágio económico global; críticos alertam para riscos financeiros na forma como a operação foi estruturada

O Japão e os Estados Unidos confirmaram, esta semana, uma intervenção conjunta e rara no mercado cambial para travar a queda acentuada do iene japonês, que na semana passada chegou a atingir níveis face ao dólar não vistos desde a década de 1980. Depois deste esforço histórico para sustentar a moeda japonesa e evitar um contágio mais amplo à economia global, os líderes dos dois países prometeram intervir novamente, caso seja necessário.

O principal responsável japonês pela política cambial classificou a acção conjunta como o “culminar” da aliança entre os Estados Unidos e o Japão, enquanto o Presidente norte-americano, Donald Trump, a descreveu como “um sinal de amizade”. “Eles queriam uma pequena ajuda, e nós estamos sempre lá para o Japão”, disse Trump aos jornalistas.

O Ministério das Finanças do Japão confirmou, na segunda-feira, ter realizado uma operação coordenada de compra de ienes com o Tesouro dos Estados Unidos na sexta-feira anterior — um raro movimento conjunto entre os dois aliados para conter oscilações abruptas na moeda japonesa. Tóquio sinalizou estar preparada para agir de novo, caso necessário, garantindo que “não hesitará em conduzir novas intervenções coordenadas no futuro” e que se mantém em estreita comunicação com o Tesouro norte-americano.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, confirmou igualmente a intervenção, afirmando que “as acções cambiais coordenadas de sexta-feira contrariaram movimentos desordenados do iene” e que “o Tesouro permanece atento e em estreita comunicação com os nossos homólogos no Ministério das Finanças e no Banco do Japão. Não hesitaremos em participar em novas intervenções conjuntas.”

Bessent aproveitou ainda para apoiar publicamente a orientação de política mais ampla de Tóquio, afirmando que os Estados Unidos “apoiam fortemente as medidas decisivas de mercado e monetárias do Japão para corrigir a substancial subvalorização do iene” — repetindo os seus apelos para que o Banco do Japão avance com novas subidas das taxas de juro. Em linha com essas exigências, o próprio banco central japonês deu, na sexta-feira, o seu sinal mais explícito até à data de uma possível subida antecipada das taxas, ainda que tenha mantido a política monetária inalterada nessa reunião. Também a Coreia do Sul interveio, na quinta-feira, para sustentar a sua própria moeda, o won, num sinal de uma coordenação mais ampla entre bancos centrais asiáticos.

Um “to-do list” que revelou a operação antes do anúncio oficial

A intervenção foi concebida para enviar uma mensagem clara aos mercados — algo evidenciado pela lista de tarefas visível de Bessent, fotografada durante uma reunião do Governo em Camp David, na qual se lia: “Comprar Iene Japonês (JPY) 5-10 mil milhões de dólares”. Foi este pormenor, captado pelos fotógrafos presentes, que acabou por antecipar publicamente a confirmação oficial da operação, feita apenas dias depois pelos dois governos.

Segundo o portal Axios, os dois governos terão recorrido a instrumentos complementares: a Reserva Federal de Nova Iorque, actuando em nome do Tesouro, terá vendido euros para comprar ienes, enquanto o mecanismo de reporte de moedas estrangeiras da Reserva Federal (FIMA Repo Facility) permitiu às autoridades japonesas pedir dólares emprestados com garantia de títulos do Tesouro norte-americano, em vez de os venderem directamente.

Apesar do tom celebratório dos responsáveis políticos, a estrutura da operação tem sido alvo de críticas por parte de analistas financeiros. Um analista da Brookings Institution escreveu que vender euros para comprar ienes “diminui a eficácia da participação dos EUA, porque inevitavelmente vai deixar os mercados a perguntarem-se por que motivo os Estados Unidos não financiaram simplesmente a compra de ienes a partir de dólares”. Segundo o mesmo analista, “os mercados vão ver isto como um sinal de fraqueza”.

O economista Mohamed El-Erian sugeriu que a mensagem coordenada de Washington e Tóquio poderá ter tido como objectivo tanto influenciar os mercados através da comunicação pública, como intervir directamente neles. Já Nigel Green, CEO da consultora financeira deVere Group, escreveu numa nota que “os mercados estão a tratar isto como uma questão cambial, mas é muito maior do que isso” — uma leitura que sugere preocupações mais amplas sobre a estabilidade financeira japonesa, num contexto em que o economista Peter Schiff tinha já alertado, dias antes, que a crescente dívida do Japão e as pressões sobre a sua moeda poderiam desencadear turbulência financeira mais alargada.

Terceira intervenção deste género em quase três décadas

Segundo dados históricos, as intervenções anteriores dos Estados Unidos no mercado do iene remontam a 1998, quando Washington se juntou ao Japão na compra da moeda japonesa, no auge da crise financeira asiática, e a 2011, quando participou, ao lado de outras nações do G7, na venda de ienes após o terramoto e o tsunami que atingiram o leste do Japão. Bessent aproveitou ainda para elogiar o governo da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, considerando que o país está a entrar “numa nova e entusiasmante fase da Abenomics”, depois de anos de estímulo monetário terem criado condições económicas subjacentes mais sólidas.

Segundo um responsável do Tesouro citado pela Axios, a intervenção foi motivada pela velocidade e pela desordem com que o iene se desvalorizou nos dias anteriores, e teve como principal objectivo evitar que essa instabilidade se propagasse a outros mercados globais — um risco que, dada a interligação dos mercados financeiros internacionais, poderia ter repercussões bem para além da fronteira entre o dólar e o iene.