As ambições de África de se tornar um protagonista relevante na economia da inteligência artificial (IA) dependerão da capacidade dos governos e investidores de avançarem rapidamente na construção de centros de dados locais, no reforço da governação dos dados e na expansão das infraestruturas de energia e água, afirmaram executivos da Schneider Electric e do Boston Consulting Group, num extenso artigo à CNBC Africa.
Steven Santini, vice-presidente para a área de Secure Power da Schneider Electric para África francófona e África Subsariana, e Akesh Mahali, director-geral e sócio da BCG, afirmaram que o continente dispõe de uma janela de oportunidade limitada para evitar tornar-se essencialmente um consumidor de ferramentas de IA desenvolvidas e alojadas noutros lugares.
A urgência reflecte a dimensão da oportunidade e, simultaneamente, da insuficiência existente. Prevê-se que a IA acrescente cerca de 16 mil milhões de dólares à economia mundial até 2030, segundo estimativas citadas durante a discussão. No entanto, África, que alberga aproximadamente 18% a 20% da população mundial, possui menos de 1% da capacidade global de centros de dados.
Mahali afirmou que este desequilíbrio corre o risco de repetir um padrão conhecido, no qual África exporta valor bruto e importa produtos acabados a preços mais elevados. Na era da IA, afirmou, o perigo equivalente é que os dados africanos sejam processados no estrangeiro e depois devolvidos aos utilizadores locais através de aplicações e plataformas pertencentes a empresas estrangeiras.
“Temos ainda algum caminho a percorrer”, afirmou Mahali, acrescentando que a oportunidade continua a ser significativa se o continente conseguir construir as bases digitais e físicas adequadas.
Os executivos afirmaram que a primeira prioridade não deve ser apenas atrair investimentos de empresas de hiper-escala, mas também desenvolver capacidade local de centros de dados que permita alojar serviços de cloud (nuvem) e processar dados dentro dos mercados africanos. Segundo eles, isso permitiria aos países reter uma parcela maior do valor gerado pelos seus próprios dados e apoiar a inovação adaptada às necessidades internas.
Santini defendeu que a procura por infraestruturas de IA já é visível, tanto por parte dos próprios mercados africanos como de investidores estrangeiros que encaram o continente como um futuro mercado de crescimento. No entanto, alertou que a região precisa de “agarrar o touro pelos cornos” e investir deliberadamente nas suas próprias capacidades, se quiser evitar transferir para outras regiões o desenvolvimento das suas infraestruturas.
Regulação é uma questão central
Uma questão central é a regulação. Mahali afirmou que a governação dos dados, as regras de soberania dos dados e a interoperabilidade entre os mercados africanos devem constituir o ponto de partida para os decisores políticos.
“Se não acertarmos isso, então a procura não surge”, afirmou Mahali. Sem sinais claros de procura e regras sobre a forma como os dados podem ser armazenados, utilizados e transferidos, acrescentou, a oferta de centros de dados e das infraestruturas que lhes dão suporte terá dificuldades em crescer à escala necessária.
Este desafio ao nível das políticas está estreitamente relacionado às infraestruturas. Ambos os executivos apontaram os sistemas de energia e de abastecimento de água como a espinha dorsal de qualquer estratégia séria de IA, uma vez que os centros de dados necessitam de grandes volumes de recursos e de fornecimento fiável de serviços essenciais. No entanto, rejeitaram a ideia de que a expansão das infraestruturas relacionadas com a IA tenha necessariamente de ocorrer à custa das famílias, da indústria transformadora ou de outras prioridades de desenvolvimento.
Santini afirmou que o desenvolvimento dessas infraestruturas não deve ser encarado como uma escolha de “ou isto ou aquilo”. Pelo contrário, defendeu que os centros de dados podem funcionar como clientes-âncora para investimentos mais amplos na produção e transmissão de eletricidade e na modernização das redes elétricas, ao mesmo tempo que contribuem para melhorar os sistemas de abastecimento de água.
Afirmou ainda que a digitalização e as ferramentas de IA incorporadas podem melhorar a eficiência desses mesmos serviços públicos, ajudando os operadores a identificar perdas, optimizar o consumo e aumentar a fiabilidade para o conjunto da economia.
A questão da sustentabilidade continua a ser particularmente sensível em África, onde muitos países já enfrentam escassez de água, pressões climáticas e défices de eletricidade. Santini afirmou que estas preocupações devem ser abordadas ainda na fase de concepção, em vez de serem tratadas posteriormente como uma questão secundária.
Apontou tecnologias de arrefecimento, como os sistemas de circuito fechado e de circuito seco, bem como métricas mais abrangentes de eficiência, incluindo a eficácia da utilização de energia (PUE — Power Usage Effectiveness) e a eficácia da utilização de água (WUE — Water Usage Effectiveness), como ferramentas que podem ajudar os operadores a reduzir a pressão sobre recursos escassos. Afirmou também que será necessário um sistema de relato transparente para garantir que os operadores permaneçam responsáveis perante as comunidades e os reguladores.
Criação de emprego
Para os dois executivos, a questão mais importante não é simplesmente saber se é possível construir centros de dados, mas quem ficará com o valor gerado por essas infraestruturas.
Santini afirmou que as infraestruturas locais criam oportunidades para o desenvolvimento de competências de engenharia, empregos técnicos e desenvolvimento de aplicações nacionais. Defendeu que alojar uma maior quantidade de infraestruturas digitais em África ajudaria os países a responder às necessidades locais através de talento local, em vez de dependerem excessivamente de tecnologias desenvolvidas na Europa, na Ásia ou nos Estados Unidos.
Mahali apresentou um argumento semelhante, recorrendo a uma perspectiva baseada na cadeia de valor. Disse que a própria camada de infraestruturas pode apoiar técnicos, engenheiros e profissionais de tecnologia locais, enquanto o processamento e a utilização de dados podem criar espaço para startups e iniciativas empresariais desenvolverem novos produtos. “Não queremos exportar os nossos dados e importar essa propriedade intelectual”, afirmou Mahali. “Queremos realmente aproveitar a riqueza dos dados africanos em África.”
Acrescentou que a população jovem e em crescimento de África reforça, ao longo do tempo, a necessidade de desenvolver a IA internamente, sobretudo se os países conseguirem transformar o crescimento demográfico numa base maior de utilizadores, criadores e inovadores.
Questionado sobre se os decisores políticos estão a agir com a urgência necessária, Mahali afirmou que o interesse pela IA aumentou claramente, mas que a coordenação continua a ser um ponto fraco. Defendeu um planeamento mais integrado entre os ministérios e um maior alinhamento entre os governos e o sector privado.
Isso, segundo ele, significa articular a regulamentação dos dados, o planeamento energético, as infraestruturas de água e os incentivos fiscais, em vez de tratar estas áreas como linhas de política separadas. Se os governos conseguirem alinhar estes domínios, afirmou, terão uma “plataforma de lançamento” mais sólida para fazer crescer o sector.
Investidores com outro olhar em relação a África
Santini afirmou que os investidores já estão a olhar para África de forma mais consistente, descrevendo o continente como uma nova fronteira para o desenvolvimento de centros de dados, devido à disponibilidade de terrenos e ao potencial para construir novos sistemas energéticos. No entanto, disse que uma execução mais rápida exigirá processos de licenciamento mais previsíveis, uma regulamentação energética mais clara e uma coordenação mais eficaz entre os actores públicos e privados.
“Precisamos de processos de licenciamento previsíveis”, afirmou Santini, acrescentando que as regras de sustentabilidade também devem ser suficientemente claras para responsabilizar os operadores, sem atrasar desnecessariamente os projectos.
Olhando para o futuro, os dois executivos afirmaram que o sucesso não deve ser medido apenas pelo número de centros de dados construídos, mas também pelo grau de independência tecnológica alcançado pelas economias africanas. Santini afirmou que um dos sinais de progresso seria uma capacidade crescente de desenvolver soluções de IA para as necessidades locais sem depender excessivamente de fornecedores externos.
Mahali afirmou que acompanharia tanto os indicadores da procura como os da oferta: um aumento acentuado da utilização da IA em toda a economia e uma progressão na cadeia de valor das infraestruturas físicas que lhe dão suporte, incluindo cadeias de fornecimento locais ligadas à água, à energia e aos sistemas digitais.
Por enquanto, a mensagem transmitida pelos dois executivos é que África continua a ter uma oportunidade significativa para definir o seu lugar na economia da IA, mas apenas se conseguir ultrapassar o discurso e construir as bases regulamentares, de serviços públicos e digitais necessárias para apoiar a inovação local.