Maior banco africano em activos ultrapassa 8 mil milhões de yuans processados em apenas um ano, num contexto de aposta crescente de Pequim na redução da dependência do dólar no comércio com África
O Standard Bank, maior instituição bancária de África em volume de activos, processou mais de 8 mil milhões de yuans chineses (CNY) — cerca de 1,2 mil milhão de dólares — através do Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS) da China, reduzindo a dependência do dólar nas trocas comerciais com Pequim.
A conquista surge pouco mais de um ano depois de o credor sul-africano se ter tornado a primeira instituição financeira em África autorizada a processar transacções através da rede do CIPS, a plataforma de liquidação transfronteiriça de Pequim para operações denominadas em renminbi (RMB).
“Ultrapassar os 8 mil milhões de yuans em fluxos de transacções logo no primeiro ano reflecte uma forte procura por um comércio fluido com a segunda maior economia do mundo”, destacou Ontiretse Modise, responsável de Pagamentos para o Banco Corporativo e de Investimento do Standard Bank.
Serviço já disponível em Angola
Inicialmente lançado na África do Sul, o serviço expandiu-se a países como Angola, Gana, Quénia, Lesoto e Tanzânia. A solução permite que empresas e instituições financeiras a operar nos principais corredores comerciais africanos liquidem operações em RMB, reduzindo os custos operacionais associados a moedas intermediárias e simplificando os processos de pagamento. Até ao final de 2026, o Standard Bank projecta alargar o acesso ao CIPS a outros mercados do continente, com o objectivo de reforçar a conectividade comercial com o mercado chinês.
De acordo com a mais recente edição do Standard Bank Africa Trade Barometer, os países asiáticos são agora os parceiros comerciais preferenciais de 35% das empresas inquiridas em dez mercados africanos, um crescimento face aos 24% registados no ano anterior — um dado que ilustra a rapidez com que a orientação comercial de várias economias africanas se tem vindo a deslocar para a Ásia, e para a China em particular.
Parte de uma estratégia mais ampla de Pequim para reduzir a dependência do dólar
O avanço do Standard Bank insere-se numa estratégia mais vasta que a China tem vindo a desenvolver em África, com o objectivo de criar mecanismos financeiros alternativos ao dólar norte-americano. No final de Junho, o Banco Central da China autorizou o pagamento directo em yuans através do Standard Bank — que opera em 21 países africanos —, numa parceria estabelecida com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC). “Esta parceria coloca-nos numa posição única para lidar com renminbi chinês, permitindo que as empresas façam e recebam pagamentos em RMB para liquidações comerciais, viabilizando o comércio entre África e a China”, afirmou o Standard Bank, em comunicado.
A expansão da infra-estrutura financeira chinesa em África soma-se ainda à rede de pagamentos do Banco Popular da China (PBOC), que já envolve mais de 40 bancos centrais em todo o mundo, ampliando de forma gradual o papel da moeda chinesa nas operações de liquidação do comércio internacional.
Uma “desdolarização” ainda lenta e distante
Apesar destes avanços, especialistas ouvidos pela imprensa internacional sublinham que o uso do yuan continua a ser minoritário no continente africano, e que uma verdadeira “desdolarização” do comércio permanece, para já, fora do horizonte — inclusivamente para as próprias autoridades chinesas. Um dos principais entraves à internacionalização plena do renminbi é o facto de a China evitar abrir por completo a sua conta de capitais — medida geralmente apontada como necessária para uma internacionalização mais rápida da moeda —, precisamente para não expor o seu sistema financeiro às turbulências da especulação global.
“Uma rápida desvalorização do dólar significaria um prejuízo muito grande, tanto para o Estado chinês, quanto para as empresas chinesas. É preciso que esse processo de desdolarização seja lento, gradual e seguro”, resume o investigador Marco Fernandes, citado pela imprensa internacional. Já o economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., antigo vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (o banco dos BRICS), tem defendido, em artigos recentes, a criação de uma nova moeda de reserva para o comércio internacional — reconhecendo, contudo, que a expansão da rede de pagamentos do PBOC já amplia, na prática, o papel da moeda chinesa na liquidação de trocas comerciais globais.
Um cenário de pagamentos cada vez mais diversificado para as empresas africanas
Embora o dólar norte-americano mantenha a hegemonia enquanto principal moeda de reserva e de comércio global, a crescente adopção de sistemas de liquidação em RMB, como o CIPS, aponta para um cenário de pagamentos cada vez mais diversificado para as empresas africanas que transaccionam com a China — uma tendência que, no caso angolano, se soma a outros movimentos recentes de diversificação cambial, como a recente integração do kwanza no sistema regional de pagamentos da SADC, reforçando o esforço mais amplo do país para reduzir a sua dependência de moedas estrangeiras terceiras nas suas trocas comerciais internacionais.