Opinião

A Bolsa veio para ficar

Na próxima quinta feira, na Marina Baía de Luanda, será tocado o sino que assinala a admissão oficial da Unitel à negociação na BODIVA. O momento é protocolar, mas não é indiferente: representa a entrada formal de uma das maiores empresas do país no mercado de capitais e confirma, de forma visível, e festejável, a escala que esta operação trouxe ao sistema. O sino não marca uma ruptura — marca um avanço.

A dispersão de 15% do capital da Unitel não se destaca apenas pelo montante envolvido, mas pelo que representa em termos de participação social: 11.264 investidores contemplados, um número que supera todas as operações anteriores e que, pela primeira vez, levou a bolsa para as conversas do trabalho, dos transportes, do bairro. Mesmo aqueles que entraram sejam uma ínfima parte da população, é uma parte que nunca tinha estado aqui.

E este é o ponto que importa sublinhar: a escala social da operação. A procura superior à oferta não é novidade no mercado angolano, nem esta operação bateu esse recorde. O que a Unitel traz não é o sinal — é a dimensão. É o salto entre centenas, depois milhares, e agora dezenas de milhares de angolanos a participar numa operação de mercado.

Este padrão não é exclusivo de Angola. Em 2008, o IPO da Safaricom, no Quénia, levou 860 mil investidores individuais à empresa e à bolsa, num fenómeno que ficou conhecido como o momento em que o mercado de capitais “entrou no quotidiano”. Na Europa, as privatizações de telecomunicações nos anos 90 — Portugal, França, Itália — massificaram a “cultura de accionista”, levando milhões de pequenos aforradores para o mercado. Na África do Sul, Nigéria e Quénia, grandes operações de telecom e energia foram pontos de viragem que ampliaram a base de investidores e criaram profundidade nos respectivos mercados.

Angola vive agora um momento que se inscreve nessa mesma lógica. A Unitel é o activo certo, no momento certo, com a escala certa para transformar a relação dos cidadãos com o mercado de capitais. Não inaugura o interesse — amplia-o. Não substitui o que foi feito — constrói sobre esse caminho. E, sobretudo, abre uma nova possibilidade: depois disto, o céu é o limite.

Se esta operação for o início de um ciclo, Angola poderá ver o mercado de capitais tornar se um espaço cada vez mais relevante para pequenos e grandes investidores, num país que precisa de alternativas de poupança e instrumentos de confiança económica.
A entrada de milhares de pequenos investidores é mais do que um indicador estatístico transformado em notícia: é um indicador de confiança. E confiança é o activo mais valioso de qualquer mercado. De qualquer relação.

A OPV da Unitel consolida um percurso e demonstra que o mercado de capitais angolano tem capacidade para chegar a mais gente, envolver mais participantes e ganhar mais profundidade. É um óptimo sinal para Angola.

Pode ser o início de uma nova fase, em que o mercado de capitais deixará de ser mais do que um instrumento financeiro, afirmando-se como um instrumento de cidadania económica.

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