Cultura

Praias do Desembarque na Normandia inscritas no Património Mundial da UNESCO. África volta a destacar-se com cinco novos locais

Sudão do Sul entra pela primeira vez na lista com uma paisagem migratória gigante, enquanto Comores, Tunísia, São Tomé e Príncipe e RD Congo reforçam a presença africana no património da Humanidade

A UNESCO declarou como Património Mundial as praias do Desembarque na Normandia, no noroeste de França, e o icónico Monte Olimpo, na Grécia. A decisão foi tomada durante a 48.ª reunião do Comité do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que decorre até quarta-feira em Busan, na Coreia do Sul, e que avaliou 30 candidaturas de diferentes países.

A inscrição das praias do Desembarque na Normandia foi o culminar de um projecto iniciado há cerca de 20 anos. Ao longo de pouco mais de 80 quilómetros de costa, entre os departamentos de Manche e Calvados, as praias do Desembarque dos Aliados foram palco de uma batalha decisiva para libertar a Europa do nazismo e pôr fim à Segunda Guerra Mundial. Em causa estão as cinco praias — Omaha, Utah, Sword, Gold e Juno — onde mais de 150 mil soldados aliados desembarcaram a 6 de Junho de 1944, assim como o local do assalto à Pointe du Hoc. “É provavelmente o maior desembarque anfíbio de sempre. Deveria ser lembrado só por isso”, afirmou o historiador David Edgerton, numa entrevista recente à Associated Press.

África reforça presença na lista da UNESCO

Mas foi também uma sessão particularmente marcante para o continente africano, que viu cinco novos locais entrarem para a lista do Património Mundial — depois de, na sessão de 2025, terem sido inscritas as primeiras candidaturas da Guiné-Bissau e da Serra Leoa, um sinal daquilo que analistas têm descrito como uma ascensão continuada de África na Lista do Património Mundial.

O destaque maior vai para o Sudão do Sul, que garantiu, pela primeira vez na sua história, um local inscrito na lista: a Paisagem Migratória de Boma-Badingilo, que engloba os parques nacionais de Boma e Badingilo, bem como as planícies inundáveis circundantes. Com cerca de 12 milhões de hectares de savanas, planícies aluviais, zonas húmidas e florestas, é um dos maiores territórios intactos e ecologicamente funcionais de toda a África, servindo de palco à chamada “Grande Migração do Nilo” — uma das maiores migrações terrestres de mamíferos do planeta, com cerca de seis milhões de antílopes, entre cobos-de-orelhas-brancas, tiangs e gazelas de Mongalla, que atravessam anualmente o ecossistema em resposta às chuvas sazonais, além de elefantes, leões e outras espécies emblemáticas das savanas africanas.

Dada a gravidade das ameaças que enfrenta, a Paisagem Migratória de Boma-Badingilo foi inscrita simultaneamente na Lista do Património Mundial e na Lista do Património Mundial em Perigo, através de um procedimento de urgência — o mesmo mecanismo usado para o Castelo do Monte Amel, no Líbano, e para Sebastia, na Palestina —, reflectindo o contexto actual, marcado por múltiplas crises, incluindo conflitos armados e alterações climáticas, que ameaçam gravemente o património mundial. “É um reconhecimento internacional do extraordinário património natural que o Sudão do Sul detém em benefício do mundo, e do nosso compromisso em protegê-lo para as gerações futuras”, afirmou o ministro da Conservação da Vida Selvagem e Turismo do Sudão do Sul, Denay Jock Chagor.

Comores, Tunísia, São Tomé e Príncipe e RD Congo também distinguidos

Também as Comores viram reconhecidas as Medinas dos Sultanatos Históricos, um conjunto de seis cidades históricas fundadas a partir do século XI, que ilustram as trocas comerciais e culturais que marcaram o Oceano Índico, com uma arquitectura e uma organização social que testemunham uma herança que mistura influências africanas, árabes e islâmicas.

Na Tunísia, foi a vez de Sidi Bou Saïd, a icónica vila azul e branca com vista sobre o Mediterrâneo, entrar para a lista, num reconhecimento que sublinha a importância do lugar para a tradição mística sufi dentro do Islão.

Em São Tomé e Príncipe, foram inscritas as Roças — antigo sistema colonial de plantações agrícolas ligado à migração forçada —, um reconhecimento que a UNESCO descreve como um lugar de memória dolorosa, mas indispensável para compreender os mecanismos económicos herdados da história colonial e do comércio de matérias-primas no continente africano.

Já na República Democrática do Congo, o Parque Nacional da Garamba — inscrito desde 1980 — foi objecto de uma reinscrição que substitui o critério estético (vii) pelo critério (ix), centrado nos processos ecológicos e biológicos em curso, reforçando, ao lado da Paisagem Migratória de Boma-Badingilo, o pilar da “conservação” entre os objectivos estratégicos da UNESCO em território africano.

Outros destaques da sessão de Busan

A inscrição do Monte Olimpo, na Grécia — o lar mítico dos 12 deuses do Olimpo —, recompensou um esforço de 12 anos por parte de Atenas para garantir o reconhecimento da sua montanha mais alta como local de património misto, cultural e natural. Elevando-se 2.918 metros a partir de uma base próxima do nível do mar, o Monte Olimpo acreditava-se ser o trono de Zeus, rei dos deuses, ao mesmo tempo que abriga uma rica biodiversidade.

A sessão de Busan reconheceu ainda locais arqueológicos no Japão — as antigas capitais de Asuka e Fujiwara —, o Castelo de Alamut, no Irão, teatros de condomínio dos séculos XVIII e XIX, em Itália, e as fortalezas capetianas reais do Languedoc, em França, entre outros locais espalhados por diferentes continentes — numa sessão que, no total, reforça a protecção internacional de locais de elevado valor histórico, cultural e natural em todo o mundo, com o continente africano a confirmar, mais uma vez, o seu peso crescente nesta lista de referência global.

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