Economia

Petróleo Brent cai mais de 7% após suspensão dos ataques entre EUA e Irão, e o alívio pode custar caro a Angola

Queda abrupta do crude, depois do pico acima dos 100 dólares há uma semana, ameaça pressionar as receitas do Estado angolano num momento de recuperação orçamental.

O preço do petróleo Brent, de referência para o país, caiu esta segunda-feira mais de 7%, negociando abaixo dos 90 dólares por barril, depois de os Estados Unidos e o Irão terem suspendido os ataques mútuos, na sequência da intensidade dos confrontos registados na última semana.

No fecho das bolsas europeias, o Brent recuava 7,55%, numa sessão em que chegou a perder mais de 9%. O petróleo de referência para Angola foi negociado a 89,47 dólares por barril, depois de, na semana passada, ter chegado a ultrapassar os 100 dólares — o valor mais alto desde Maio. O West Texas Intermediate (WTI), petróleo de referência nos Estados Unidos, desvalorizou 7,03%, para 83,03 dólares por barril.

Uma trégua ainda frágil

A queda surge depois de, ao fim de 13 noites consecutivas de ataques destinados a reduzir a capacidade do Irão de atacar navios comerciais, os Estados Unidos terem aparentemente suspendido as operações desde o final da semana passada. Segundo analistas citados pela imprensa internacional, a pausa nos ataques e os relatos de progresso nas negociações aumentaram as expectativas de que possa surgir novamente um caminho para a desescalada, o que poderia levar a uma retoma dos fluxos normais de petróleo pelo Estreito de Ormuz e pelo Mar Vermelho.

Os analistas alertam, contudo, para o risco de esta trégua se revelar apenas temporária — um cenário que já se repetiu antes: em Junho, Estados Unidos e Irão tinham chegado a um cessar-fogo que acabou por ser amplamente violado, com o Brent a oscilar, ao longo dos últimos meses, entre picos acima dos 140 dólares por barril — o valor mais alto desde 2008 — e quedas para perto dos 70 dólares, sempre que surgiam sinais de acalmia nas negociações. Este mês, os contractos futuros chegaram a acumular uma subida de cerca de 20%, à medida que os houthis, apoiados pelo Irão, ameaçavam as exportações sauditas a partir do Mar Vermelho — rota alternativa crucial desde que a guerra afectou o fluxo habitual através de Ormuz.

Uma volatilidade que testa as contas do Estado angolano

Para Angola, este vaivém abrupto nos preços do petróleo — de pouco mais de 70 dólares no início de Julho, para mais de 100 dólares há uma semana, e agora de volta perto dos 90 dólares — representa um desafio directo para a gestão orçamental do país, cuja economia continua fortemente dependente das receitas petrolíferas para financiar a despesa pública.

Os últimos meses tinham sido de boas notícias para as contas angolanas: o Banco Nacional de Angola reviu recentemente em baixa a sua previsão de inflação para 2026, para 8,6%, e o Fundo Monetário Internacional projectava uma inflação média de 12,9% este ano, num contexto de estabilidade cambial associada, em parte, a uma maior disponibilidade de divisas. Uma descida sustentada do preço do petróleo poderia, no entanto, reverter parte destes ganhos, ao reduzir as receitas em moeda estrangeira que têm permitido financiar as importações e manter o kwanza relativamente estável desde o final de 2024.

Angola tem procurado, nos últimos meses, atrair de volta operadoras internacionais para o seu sector petrolífero — com anúncios recentes envolvendo a TotalEnergies, a ExxonMobil, a Shell e, mais recentemente, sinais de interesse renovado por parte da Galp —, numa estratégia orientada para travar o declínio da produção nacional e mantê-la acima de um milhão de barris por dia. Uma prolongada instabilidade nos preços internacionais do crude, ainda que possa gerar picos pontuais de receita em momentos de escalada do conflito no Médio Oriente, tende a desincentivar decisões de investimento de mais longo prazo por parte das petrolíferas — precisamente o tipo de compromisso que Angola procura garantir para inverter a tendência de queda da sua produção.

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