Internacional

EUA impõem tarifa de 25% ao Brasil. Rubio culpa Lula, Brasília fala em “marco lastimável”

Washington confirmou a aplicação, a partir de 22 de Julho, de uma tarifa de 25% sobre a maioria das importações brasileiras. O secretário de Estado Marco Rubio atribui a medida à falta de acordo comercial com o governo de Lula da Silva; o Executivo brasileiro rejeita a decisão como unilateral e anuncia contestação na Organização Mundial do Comércio.

A administração de Donald Trump oficializou, a 15 de Julho de 2026, a imposição de uma tarifa de 25% sobre grande parte dos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, com entrada em vigor marcada para 22 de Julho. A decisão, tomada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) ao abrigo da Secção 301 da Lei de Comércio de 1974, encerra uma investigação aberta em julho de 2025 a pedido de Trump.

Numa publicação na rede social X, o secretário de Estado norte-americano defendeu a medida como resposta a um ano de negociações mal-sucedidas. Segundo Rubio, o governo brasileiro não teria negociado de boa-fé, e Lula da Silva teria priorizado interesses pessoais em detrimento de um entendimento comercial favorável à população brasileira. Rubio classificou ainda as políticas económicas do executivo brasileiro como prejudiciais tanto para os Estados Unidos como para o próprio Brasil.

Estas críticas já constavam de uma carta enviada por Rubio ao senador Flávio Bolsonaro em 23 de junho, na qual o secretário de Estado detalhava as queixas comerciais de Washington: tarifas preferenciais que o Brasil concede a outros países, como México e Índia; barreiras ao acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro; restrições ao comércio digital e privilégios atribuídos ao sistema de pagamentos Pix, considerados desfavoráveis às empresas tecnológicas e de pagamentos dos EUA; falhas na proteção da propriedade intelectual; e desmatamento ilegal.

O USTR, através do representante comercial Jamieson Greer, confirmou que as “extensas negociações” do último ano não resolveram estas questões, embora tenha deixado em aberto a possibilidade de novas conversações.

Alguns produtos ficaram de fora da tarifa por serem considerados essenciais à cadeia de abastecimento norte-americana, entre eles café, carne bovina, laranja e sumo de laranja, alguns óleos, produtos energéticos e componentes aeroespaciais.

Rubio insistiu que a medida decorre exclusivamente de política comercial, sem relação com as afinidades ideológicas entre a Casa Branca e o bolsonarismo.

A resposta de Brasília

O governo brasileiro reagiu no mesmo dia, classificando a data como “um marco lastimável” nas relações entre os dois países. Em comunicado, o Palácio do Planalto rejeitou a legitimidade de uma investigação que, segundo Brasília, carece de amparo nas regras multilaterais de comércio, e sustentou não haver justificação para medidas unilaterais.

O executivo brasileiro contrapôs com dados do próprio governo dos EUA, segundo os quais Washington acumulou, nos últimos 15 anos, um superavit comercial de 424,5 mil milhões de dólares com o Brasil. Acrescentou que, em 2025, 76% das importações norte-americanas entraram em território brasileiro sem pagamento de imposto, com uma tarifa média efetiva de apenas 3,1% sobre produtos dos EUA.

Brasília recordou também que, nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana anterior, a maioria das intervenções do setor privado — 63 em 78 — se posicionou contra a aplicação das tarifas. O governo brasileiro negou ter abandonado as negociações e rejeitou como infundadas as alegações sobre o Pix e a regulação de plataformas digitais, e como “absurdas” as acusações ligadas ao desmatamento.

O comunicado reafirmou ainda a disposição do país em proteger crianças e famílias de práticas associadas a grandes empresas tecnológicas, sublinhando que a liberdade de expressão não legitima atividades criminosas.

O executivo de Lula da Silva voltou a responsabilizar a família Bolsonaro pelo desfecho, acusando-a de motivações eleitorais. A crítica surge depois de o pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro ter sugerido, durante uma audiência pública do USTR, que Washington prolongasse a tarifa até depois das eleições gerais de outubro, para não beneficiar politicamente Lula, que disputa um quarto mandato.

O Brasil já anunciou que vai contestar a decisão norte-americana junto da Organização Mundial do Comércio.

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