O comandante do Comando dos Estados Unidos para África (AFRICOM), general Dagvin Anderson, rejeitou o envio de tropas norte-americanas para assegurar a paz na República Democrática do Congo (RDCongo) e defendeu que o plano de Washington para a região assenta no investimento económico, e não na presença militar, como motor de estabilidade.
O general falava à margem da Conferência de Chefes de Defesa do AFRICOM, que reuniu em Luanda, esta semana, representantes de 35 países, com Angola a ser distinguida pelos EUA como “parceiro estratégico” e exemplo de reconciliação.
Questionado sobre se os acordos de paz para a RDCongo, negociados pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, em Washington, poderiam implicar presença militar dos EUA no terreno, Anderson foi categórico: “Não estamos a planear ter quaisquer tropas americanas no terreno. Não há nenhuma discussão sobre isso neste momento.”
O general reconheceu que os chamados Acordos de Washington para a Paz e a Prosperidade — que incluem um cessar-fogo permanente entre a RDCongo e o Ruanda, o desarmamento de grupos armados e acordos bilaterais que concedem a empresas norte-americanas prioridade no acesso a reservas de minerais críticos — associam paz e investimento económico, mas rejeitou que se trate de uma troca direta. “Não diria que é um ‘quid pro quo’, mas permitem o investimento e o desenvolvimento para beneficiar desses minerais que lá estão, tanto para os países anfitriões como para outras empresas que estejam disponíveis e sejam capazes de investir”, explicou.
Anderson reconheceu ainda o papel do Presidente angolano, João Lourenço, “muito envolvido” na mediação do conflito, e adiantou que há oportunidades para que os países da região trabalhem em conjunto, com o AFRICOM disponível para apoiar, nomeadamente, na partilha de experiências no combate ao terrorismo.
Corredor do Lobito e recusa de base militar em Angola
Sobre a escolha de Luanda para acolher a conferência, Anderson sublinhou o papel central de Angola na região e no continente, referindo que a relação bilateral se tem vindo a aprofundar ao longo dos últimos cinco a seis anos. Quanto ao Corredor do Lobito — o projeto ferroviário que liga o porto angolano do Lobito à RDCongo, considerado estratégico por Washington —, o general disse que o AFRICOM não terá um papel direto na sua segurança, mas que “o investimento ajuda a construir estabilidade e a construir prosperidade em geral, e isso acaba por levar à segurança”.
Anderson afastou também a hipótese de instalação de uma base militar norte-americana em Angola, esclarecendo que o Acordo de Aquisição e Serviços Recíproco assinado entre os dois países estabelece apenas um quadro logístico para cooperação pontual, sem implicar presença permanente.
A visita coincidiu com a assinatura, na segunda-feira, de uma parceria entre a Guarda Nacional do estado norte-americano do Ohio e Angola, no âmbito do State Partnership Program — uma iniciativa que, segundo Anderson, permite construir relações entre forças armadas que vão além do domínio militar, estendendo-se a instituições académicas, sociais e a oportunidades de investimento. O general citou a parceria entre o Ohio e a Hungria como modelo do tipo de envolvimento de longo prazo que os EUA pretendem replicar em Angola.
Terrorismo “jihadista” como principal ameaça
Questionado sobre o fim de projetos da USAID, o encerramento de embaixadas e a redução de pessoal diplomático dos EUA em África, Anderson negou que o AFRICOM pretenda substituir o “soft power” pelo poder militar, sublinhando que o papel das forças armadas é complementar, e não substituto, dos restantes instrumentos de poder.
Sobre as principais ameaças ao continente, o comandante identificou o terrorismo jihadista como preocupação central, alertando que a Al-Qaida e o Estado Islâmico transferiram liderança e operações para África, que se tornou “o epicentro do terrorismo global”. Anderson destacou, a este propósito, a colaboração recente com a Nigéria, que resultou na eliminação de Al-Minuki, descrito pelo general como o segundo terrorista mais procurado do Estado Islâmico a nível mundial.
Sobre uma eventual relocalização do quartel-general do AFRICOM, atualmente sediado na Alemanha, para o continente africano, Anderson disse não antever mudanças a curto prazo, invocando os custos da transferência e o atual contexto orçamental dos Estados Unidos, remetendo qualquer decisão para os responsáveis políticos.
Angola, “parceiro estratégico”, encerra conferência
No encerramento da Conferência dos Chefes de Defesa Africanos (ACHOD 2026), esta quarta-feira, em Luanda, Anderson reconheceu Angola como um parceiro estratégico e um exemplo de reconciliação, estabilidade e cooperação internacional. Na mesma ocasião, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA), general de aviação Altino Carlos, afirmou que os debates ao longo da conferência permitiram consolidar uma visão comum sobre os principais desafios de segurança que afetam o continente, reforçando o compromisso dos países participantes com a paz, a estabilidade político-social e o desenvolvimento sustentável.
Segundo o general angolano, o encontro constituiu “um espaço privilegiado de reflexão e de concertação” entre os mais altos responsáveis militares africanos, permitindo analisar soluções conjuntas para responder às ameaças que afetam a segurança regional.