A Rússia e a Ucrânia intensificaram os ataques mútuos ao ponto de, segundo especialistas, se viver um dos momentos mais perigosos desde o início da invasão russa, há mais de quatro anos — precisamente quando os dois principais negociadores dos Estados Unidos para o dossiê, o enviado especial Steve Witkoff e o genro do Presidente DonaldTrump, Jared Kushner, têm estado concentrados nas negociações paralelas com o Irão.
O Presidente russo, Vladimir Putin, disse compreender que a Administração Trump esteja “distraída” com o Irão; o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, lamentou que o seu país já não seja a prioridade máxima de Washington: “infelizmente, estamos nesta fila de guerras”, disse a jornalistas.
Witkoff e Kushner viajaram esta semana para o Qatar para mais uma ronda de conversações sobre o Irão, precisamente quando a Ucrânia lançava mais drones contra Moscovo e a Rússia preparava um novo bombardeamento sobre Kiev, onde pelo menos 21 pessoas morreram na madrugada de quinta-feira em ataques noturnos, segundo o New York Times.
O último encontro presencial conhecido entre responsáveis russos e ucranianos aconteceu na Suíça, em fevereiro, com Witkoff e Kushner sentados entre as duas delegações. Nos meses seguintes, a guerra do Irão absorveu a atenção da equipa de Trump, enquanto o combate entre Rússia e Ucrânia — um conflito que Trump tinha prometido resolver em 24 horas — só se intensificou. “Estivemos concentrados no Irão”, disse Trump no mês passado, sugerindo que a Administração poderá retomar os esforços para terminar a guerra na Ucrânia assim que o dossiê iraniano ficar “no espelho retrovisor”.
Uma diplomacia reduzida ao mínimo
A limitada capacidade diplomática disponível para Trump expõe a sua abordagem extraordinariamente simplificada à diplomacia de alto risco. O cargo de embaixador dos EUA em Moscovo está vago há mais de um ano, e o embaixador interino em Kiev demitiu-se em abril. O secretário de Estado, Marco Rubio, e outros diplomatas de topo têm tido um papel limitado no dossiê ucraniano, deixando os dois enviados de Trump como as peças centrais do processo.
Para Moscovo e para Kiev — presas numa guerra de desgaste que já matou ou feriu mais de dois milhões de militares —, Witkoff e Kushner são contactos valiosos, com linha direta ao Presidente norte-americano. Mas representam também um estrangulamento, por não terem por trás as equipas diplomáticas que normalmente preparam o terreno para negociações de alto nível.
Zelensky deu voz a essa frustração numa entrevista à CBS News na quinta-feira, dizendo que continua à espera que os dois visitem a Ucrânia. “Compreendo que há desafios no Médio Oriente”, afirmou, “mas precisamos de mais, mais do que palavras.”
“Faz de conta que negociamos como negócios imobiliários”
Witkoff e Kushner, que ajudaram a fechar o cessar-fogo na guerra de Gaza no ano passado, são promotores imobiliários que se descrevem como “dealmakers” avessos às tradições mais formais da diplomacia. Um responsável norte-americano sénior, falando sob anonimato dada a sensibilidade das negociações, disse ao NYT que essa abordagem os leva a gerir várias negociações em simultâneo, tal como faziam nas suas carreiras empresariais — e como Kushner já tinha feito no primeiro mandato de Trump. O mesmo responsável garantiu que os dois têm mantido contacto quase diário com autoridades ucranianas e russas, e realizado reuniões presenciais que não foram noticiadas; estão prontos a viajar para a Rússia e a Ucrânia se houver algo de novo para discutir, mas não o farão “para uma sessão de fotos”.
Em Moscovo, segundo duas pessoas próximas do Kremlin e dois antigos diplomatas que visitaram a capital russa na semana passada, também há expectativa em torno do regresso de Witkoff e Kushner. Os russos estão “desesperadamente à espera do regresso de Witkoff e Kushner”, disse um dos antigos diplomatas, Thomas Greminger, que dirige um centro de estudos suíço e viajou até Moscovo para uma conferência de política externa. “Há muita frustração com os dois. Ao mesmo tempo, ninguém tem alternativa à mediação dos Estados Unidos.”
Putin valoriza particularmente a relação com Witkoff, segundo as mesmas fontes próximas do Kremlin: vê o amigo próximo de Trump como um canal essencial para alcançar objetivos que só os Estados Unidos podem garantir, incluindo um entendimento que mantenha a Ucrânia fora da NATO. Ainda assim, responsáveis russos manifestam frustração com a irregularidade destas visitas e a falta de acompanhamento posterior, e têm pedido um processo diplomático mais estruturado.
“Se quisermos levar este processo a uma resolução, é preciso um esforço diplomático intenso”, disse Thomas Graham, diplomata norte-americano que geriu o diálogo estratégico com o Kremlin durante a Administração de George W. Bush e que também esteve na conferência de Moscovo. “Os Estados Unidos são o único país em posição de o liderar, se assim o quiserem.”
Witkoff já se reuniu com Putin sete vezes desde que Trump regressou à Casa Branca — a mais recente em janeiro e em dezembro, já acompanhado por Kushner —, mas ainda não visitou a Ucrânia. Putin afirmou no domingo que espera o regresso de ambos a Moscovo depois do fim “da fase quente” da frente iraniana. O vazio diplomático deixado pelos Estados Unidos também se faz sentir na Europa, onde os responsáveis do continente ainda não resolveram o debate sobre quem, entre eles, deveria falar com o Kremlin.
Do primeiro encontro directo em quatro anos ao impasse atual
Em Janeiro e Fevereiro, Witkoff e Kushnerorganizaram uma série de reuniões que estiveram entre as primeiras conversações directas e presenciais entre Rússia e Ucrânia desde as primeiras semanas da guerra, em 2022. Esses encontros terminaram depois de Trump ter entrado em guerra com o Irão, a 28 de Fevereiro — um conflito que colocou Witkoff e Kushner no centro de esforços cada vez mais urgentes para negociar o fim de uma guerra impopular.
Enquanto a atenção norte-americana estava concentrada no Irão, a guerra na Ucrânia apenas se intensificou. Kiev aperfeiçoou a sua capacidade de ataque de longo alcance, atingindo Moscovo, perturbando o abastecimento russo de combustível e reforçando uma campanha para isolar a península da Crimeia, anexada pela Rússia, numa tentativa de inverter o rumo da guerra. Putin rejeitou um pedido de reunião de Zelensky que classificou como provocatório e intensificou os ataques contra a Ucrânia.
Críticas ao papel dos dois enviados
Para os críticos, Witkoff e Kushner têm procurado um acordo de paz que recompensaria a agressão russa, cedendo a algumas exigências de Putin sobre a Ucrânia e abrindo caminho a negócios com a Rússia. Isso levou alguns analistas a argumentar que a sua distração nos últimos meses acabou, paradoxalmente, por beneficiar a Ucrânia, ao reduzir a pressão sobre Zelensky para aceitar os termos russos.
“O drama de mais viagens de Witkoff e Kushnersimplesmente não vai mudar a trajectória da guerra”, disse Andrew S. Weiss, que dirige a investigação sobre Rússia e Eurásia na Carnegie Endowment for International Peace. Weiss, antigo responsável do Departamento de Estado, alertou que a guerra entrou numa “espiral de escalada”, com ataques ucranianos cada vez mais agressivos em território russo e bombardeamentos russos com drones e mísseis. Segundo ele, a Ucrânia está vulnerável porque a sua capacidade de defesa aérea foi ultrapassada pela capacidade russa de produzir mais mísseis, e os Estados Unidos precisam de trabalhar de perto com Kiev “para ter alguma influência sobre as escolhas que fazem em matéria de alvos e táticas”.
Trump, por seu lado, tem desvalorizado os riscos para os Estados Unidos, apesar de insistir que quer terminar a guerra. “Não tem impacto em nós, a não ser o facto de vendermos armas”, disse à margem da cimeira do G7 em França, no mês passado. “Estamos a milhares de quilómetros de distância.”
Analistas dizem, no entanto, que o conflito mais sangrento na Europa desde a Segunda Guerra Mundial afeta sim os Estados Unidos, e que pode ainda escalar para um confronto de maior dimensão. Zelensky ameaçou recentemente a vizinha Bielorrússia, aliada próxima da Rússia, enquanto Putin poderá optar por testar a determinação de Trump em defender os aliados da NATO na Europa.
“Este conflito não é do tipo que espera que tenhamos tempo para ele”, disse Samuel Charap, cientista político do think tank RAND Corporation. “Está em constante evolução. Os riscos de escalada estão sempre presentes.”