A deslocação a Belgrado, a convite de Aleksandar Vučić, reactiva uma parceria com mais de cinco décadas — que começa no dia em que a Jugoslávia se tornou o primeiro país europeu a reconhecer o Estado angolano.
O Presidente da República João Lourenço parte esta segunda-feira para uma visita oficial de dois dias à Sérvia, a convite do homólogo Aleksandar Vučić. A deslocação a Belgrado é a expressão mais recente de uma relação bilateral que, ao contrário de muitas parcerias africanas com países europeus, não nasceu da negociação pós-colonial nem do interesse económico imediato — nasceu de uma escolha política feita na noite de 11 para 12 de Novembro de 1975.
Quando o MPLA proclamou a independência de Angola, a República Socialista Federativa da Jugoslávia foi um dos primeiro país europeu a reconhecer o novo Estado soberano. O gesto não foi surpreendente para quem acompanhava a diplomacia de Josip Broz Tito: Belgrado mantinha há anos um escritório de informação do MPLA que funcionava, na prática, como uma embaixada informal, e havia concedido bolsas de estudo a quadros do movimento de libertação. Em 1977, o apoio materializou-se ainda num financiamento de 14 milhões de dólares e na presença de pessoal técnico e de segurança jugoslavo em Luanda. Tito foi também um dos poucos líderes a endossar explicitamente a intervenção cubana em Angola, num momento em que Washington pressionava os aliados a condená-la.
As relações diplomáticas formais ficaram estabelecidas em Abril de 1977, com a assinatura de um Acordo Geral de Cooperação Económica e Técnico-Científica — o mesmo ano em que Angola abriu a sua missão diplomática em Belgrado.
Da Jugoslávia à Sérvia: continuidade sem ruptura
Com a dissolução da Jugoslávia nos anos 90 e a emergência dos Estados sucessores, Angola manteve com a Sérvia a herança desta relação histórica. Belgrado considera-se o herdeiro jurídico dos laços construídos com Luanda durante a era jugoslava, e os dois países têm sublinhado essa continuidade em cada momento de aproximação diplomática.
Ao longo das últimas décadas, a cooperação bilateral consolidou-se em 19 instrumentos jurídicos e diversificou-se por áreas como a educação — um dos vínculos mais duradouros, com a presença de estudantes angolanos em universidades sérvias —, a segurança e ordem pública, a agricultura, a indústria transformadora e a diplomacia. Os dois países assinaram recentemente acordos de isenção de vistos para titulares de passaportes diplomáticos e de serviço, memorandos de consultas políticas e um acordo de cooperação entre as respectivas academias diplomáticas, estando prevista a rubrica de mais 12 instrumentos bilaterais e a reactivação da Comissão Mista ao nível ministerial.
O momento da visita
A deslocação de João Lourenço insere-se num ciclo de reforço da presença diplomática angolana nos Balcãs e no Leste europeu, numa altura em que Angola procura diversificar parcerias estratégicas para além dos eixos tradicionais. Em Fevereiro deste ano, o Presidente angolano enviou uma mensagem de felicitações a Vučić pelo Dia Nacional da Sérvia, reiterando o interesse no aprofundamento da cooperação bilateral. A visita desta semana dará substância a esse compromisso, num encontro entre dois líderes que gerem países com perfis distintosmas com uma longa memória partilhada de solidariedade política.
Do lado sérvio, a relação com Angola mantém-se como uma das parcerias africanas mais valorizadas, num contexto em que Belgrado procura afirmar uma política externa autónoma e alargada, equilibrando a sua candidatura à União Europeia com relações próximas com parceiros do Sul Global.