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Sector privado e a crise

Angola /
23 Ago 2019 / 11:27 H.
Aylton Melo

Ao aproximarmo-nos do final de 2019, começa a ganhar formar uma atmosfera de pessimismo pelo mundo inteiro em relação a uma eventual crise mundial em 2020.

Se ocorrer, alistas defendem que os esforços multilaterais dos Governos e o peso que o sector privado tem nas economias serão peças-chave, 12 anos depois da crise financeira de 2008. Os alarmes estão relacionados com a estagnação da economia do Reino Unido (por causa das incertezas em relação ao Brexit), queda do crescimento do PIB mundial.

Mas os precedentes podem vir desde 2014 com a queda dos preços do petróleo e das commodities, que moderaram a inflação nas grandes economias. O que deu à economia global um impulso que ela precisava, às custas das nações exportadoras de petróleo e outras commodities. 2018 foi um ano particularmente atípico, excepto nos EUA, onde os cortes de impostos de Donald Trump compensaram o fraco comércio global e alimentaram um boom de consumo. voltando a 2019, as coisas parecem muito diferentes, porque a dívida subiu a níveis pré-crise em muitos países. E mais uma vez, o endividamento disparou e os governos, embora tenham reduzido os déficits anuais, continuam sentados sobre montanhas de dívidas.

O que nos leva a reflectir sobre os avanços das reformas em curso e que ainda podem ser feitas na economia angolana, para que os eventuais efeitos não sejam tão catastróficos. Mas serão, porque a contribuição do capital do sector privado tem sido muito baixa em contraste com o resto da África Subsaariana, de acordo com um recente diagnóstico da IFC - organização co-filial do Banco Mundial e membro do Grupo Banco Mundial, virada para o sector privado em mercados emergentes. De acordo com o IFC, a contribuição do capital privado para o crescimento económico nunca foi expressivo, mantendo-se assim especialmente entre 1996-2014.

Ainda que vários sectores terão prosperado durante os anos do boom de petróleo: construção e imobiliário, comércio e distribuição, bem como o financeiro, estiveram sempre ligados aos fluxos dos petrodólares. Num grau menor, as telecomunicações e transporte aéreo também beneficiaram da economia em rápido crescimento na primeira década de 2000.

Juntos, o crescimento destes sectores alterou a face da economia angolana, agora dominada pelos sector dos serviços. No entanto, estes não contribuem o suficiente para colocar a economia numa trajectória de crescimento sustentável. A agricultura e a indústria transformadora, que por muito tempo têm sido priorizadas pelo governo não conseguem desenvolver-se apesar de receberem estímulos públicos.