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Sector Empresarial Público enfrenta desafios de liquidez e de criação de valor accionista

Namibe /
06 Ago 2020 / 15:08 H.
José Bucassa

OSector Empresarial Público (SEP) desempenha um papel importante na economia nacional. Através do SEP o Estado coloca à disposição do mercado produtos e serviços essenciais e cria postos de trabalho fora da administração pública, actuando em diferentes sector de actividade.

Não obstante à componente social implícita à intervenção do SEP na economia, é expectável que o Estado obtenha dividendos da sua participação accionista nestas actividades empresariais, contribuindo para as receitas públicas.

A 30 de Junho do ano em curso, apenas 50, das 80 empresas com obrigação de prestação de contas, apresentou as contas. Destaca-se a entrada de novas empresas neste processo ( 6 do sector da Energia e Águas) e a ausência de outras, que cumpriram com esse procedimento no exercício de 2018.

Fazendo uma breve análise ao desempenho do SEP no ano 2019 (apenas o sector não financeiro) é possível verificar que, pelo indicador de liquidez imediata, excepto a Unicargas (valor do indicador: 1,25), Empresa Pública de Águas do Namibe (valor do indicador: 1,22) e a Aerovia (valor do indicador: 1,09), todas as empresas enfrentam dificuldades para honrar compromissos de curto prazo (exigível até 1 ano). Isto é, por cada 100AOA (cem kwanzas) de dívida de curto prazo contraída não conseguirão pagar mais do que 63AOA(sessenta e três kwanzas).

Também é possível verificar que o USEP regista “perda de valor”, caracterizada pela diminuição do valor accionista (Capital Próprio). Neste domínio, de uma forma agregada, estão mais afectados os sectores da Agricultura e Pescas (2019: 50.336mAOA negativos; 2018: 3.601.085mAOA), Telecomunicações e Comunicação Social (2019: 47.548.208mAOA negativos; 2018: 5.652.651mAOA negativos), Indústria e Comércio (2019: 40.683.424 negativos; 2018: 22.021.146mAOA negativos).

Nos restantes sectores, é notória essa mesma tendência, apesar dos valores serem positivos, nomeadamente nos Transportes (2019: 8.917.480mAOA; 2018: 11.194.917mAOA), Defesa (2019: 4.671.657mAOA; 2018: 9.067.472mAOA) e Energia & Águas (2019: 240.330.796mAOA; 2018: 309.332.917mAOA), exceptuando-se os sectores dos Recursos Minerais e Petróleos (2019: 106.644.047mAOA; 2018: 77.746.845mAOA) e Economia (2019: 1.271.220.652mAOA; 2018: 1.270.687.939mAOA), que revelam uma trajetória diferente.

Esta situação é prejudicial e não proporcionar a melhor rentabilidade ao investimento realizado pelo accionista, considerando também o resultado negativo agregado do USEP, que neste exercício ascende aos 92.763.231mAOA.

O Entreposto Aduaneiro de Angola poderá requerer uma atenção especial porque a sua situação revela, além da baixa capacidade de liquidez (valor do indicador abaixo de 0,4 ou 40%), um crescimento da perda de capital (capital próprio) em cerca de 46% face ao ano anterior, e do seu activo total (2019: 13.069.186mAOA) ser cerca de 4 vezes inferior aos compromissos de curto prazo (2019: 53.752.610mAOA). A mesma situação encontra-se a INSTAL cujos compromissos de urto prazo (2019: 105.163mAOA) são cerca de 11 vezes superior ao seu activo total (2019: 9.390mAOA).

Os processos de reestruturação que eventualmente serão conduzidos no USEP, particularmente nas empresas ineficientes, serão desafiadores e não é recomendável que tenham grande enfoque apenas na injeção de liquidez (cash), pois é uma medida de efeito temporário que equilibra as obrigações e não assegura eficiência. Será necessário que as medidas estejam mais voltadas para a melhoria das competências das equipas, dos processos de gestão de cobranças, dos processos de controlo interno e de governação, almejando a eficiência, a rentabilidade e, consequentemente, a criação de valor para o accionista.