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(Re) Pensar a economia (Parte 2)

10 Jul 2020 / 16:09 H.
Edgar Leandro

As crises financeiras que abalam periodicamente as economias dos países em desenvolvimento voltam a pôr em questão um sistema de inspiração neoliberal, baseado no princípio de alargamento de um mercado mundializado.

É chegada a hora de uma reavaliação sem complacência da ortodoxia económica dominante e do modo de governo que se faz através do G8, das organizações de Bretton Woods e da Organização Mundial do Comércio. Este sistema económico e financeiro agrava as desigualdades, a pobreza e o desemprego, empenha as finanças dos países pobres e anula os esforços de desenvolvimento e de democratização.

Sabemos que existe um fosso que origina o horror económico que tomou a cena histórica sob a dominação do capital globalizado especialmente do especulativo sob a regência cruel do neoliberalismo radical. Tudo é visto como mercadoria, do sexo à religião, numa volúpia de acumulação desenfreada de riquezas e serviços à custa da devastação da natureza e da precarização ilimitada dos postos de trabalho.

O desafio a ser enfrentado é fazer tudo para manter a unidade da família angolana, habitando a mesma Casa Comum. Todos são filhos e filhas da Terra. Todos têm direito de serem incluídos nesta Casa Comum e de participarem das suas riquezas.

Para dar corpo a este desafio precisamos de uma outra ética humanitária que implica resgatar os valores ligados à solidariedade, à empatia e à compaixão. Importa recordar que foi a solidariedade/cooperação que permitiu aos nossos ancestrais, há alguns milhões de anos, darem o salto da animalidade à humanidade. Ao saírem para colher alimentos, não os comiam individualmente como o fazem os animais. Antes, reuniam os frutos e a caça e os levavam para o grupo de coiguais e os repartiam solidariamente entre todos. Deste gesto primordial nasceu a socialidade, a linguagem e a singularidade humana. Será hoje ainda a solidariedade irrestrita, a partir de baixo, a compaixão que se sensibiliza diante do sofrimento do outro e da Mãe Natureza, que garantirão o carácter humano da nossa identidade e das nossas práticas do dia-dia.

Sem o gesto do bom samaritano que se verga sobre os caídos da estrada ou a vontade de infinita compaixão do bodhisattva que renuncia penetrar no nirvana por amor à pessoa que sofre, ao animal quebrantado ou à árvore mirrada, dificilmente faremos frente à desumanidade quotidiana que aos poucos vai se naturalizando a nível das famílias angolanas e num contexto mundial.

(Re) Pensar a economia e o desenvolvimento: será necessário mudar de paradigma? É necessário incluir novos e vedetas da economia e líderes internacionais de alto nível. Procurar de novo soluções inovadoras e concretas que permitam sair da crise e criar condições favoráveis ao estabelecimento de um sistema económico internacional equilibrado e a um desenvolvimento duradouro, que concilie as exigências do crescimento económico, da preservação do ambiente e da equidade social. Está lançado o desafio.

Ao escrever este artigo, nesta madrugada de quarta-feira, 03 de Junho, fui obrigado a recuar até o ano de 1986 e voltar a ouvir o grande pensador e Mestre do desenvolvimento, Paul-Marc Henry, na reunião de peritos da UNESCO sobre *Pobreza, progresso e desenvolvimento*, ele já punha em relevo *os riscos de uma profunda cisão da sociedade humana entre ricos e marginalizados*.

Perante a riqueza desta reunião, sendo um grande empurrão para a construção deste artigo, reflictamos que um *novo paradigma* não pode ser ditado unicamente pela verificação dos danos de uma crise que alguns são por vezes tentados a comparar, na sua gravidade, à dos anos 30, ou à crise geral de civilização que nós atravessamos sob a influência das mutações em curso em todos os domínios e da desordem que delas resulta.

Seja qual for a alternativa mais correcta, o que parece inegável é a emergência desse novo (re) pensar da economia e do desenvolvimento.

Entre opinião, crónicas e ensaios esta é a minha visão.