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(Re) Pensar a Economia (I)

22 Jun 2020 / 15:34 H.
Edgar Leandro

As recentes crises pessoais e nacionais prejudicam a construção de um projecto unificado e deixam de lado a grande parte do povo angolano.

A industrialização de Angola durante o período colonial não visava, pois, o desenvolvimento autocentrado do capitalismo colonial, mas sobretudo as exigências "internas e externas, políticas e económicas, da sociedade central metropolitana",como sublinha Torres (1983:1118). O custo da guerra colonial, o "gosto" por um certo capitalismo de rendas e os esforços financeiros exigidos para este desenvolvimento precipitado favoreceram a implantação da burguesia mundial em Angola.

O modelo de desenvolvimento de Angola deve ser (re) pensado.

Mesmo que possa parecer paradoxal, a luta pela construção da nação angolana recoloca o país no seu verdadeiro contexto, a África Austral. Sobre a nação angolana abordaremos mais tarde. Não mais se trata de escolher entre o colonialismo ou o neocolonialismo português e a libertação nacional enquanto conquista política, mas sim entre uma integração regional melhor e integração mundial maior.

O Governo, hoje, não deve ser apenas inteligente; deve pensar e preparar-se para o amanhã.

Para que maiores perspectivas de progresso sejam oferecidas aos cidadãos angolanos e para que a luta contra a pobreza multidimensional possa ser levada a cabo com sucesso à escala mundial, um novo paradigma deve ser definido, novas estratégias devem ser propostas.

É necessário inovar as regras, as instituições, os procedimentos, permitindo reforçar a política e a governabilidade da economia quer ao nível global como regional e local.

É necessário, também, um profundo renovar do pensamento económico sobre o qual repousem os esforços de racionalização da acção.

(Re) Pensar a Economia visa pensar em um modelo económico capaz de vislumbrar os limites e as possibilidades de uma economia sustentável, ética e socialmente regulada. Para isto propõem-se estudos e reflexões, que contemplem ideias de diferentes saberes, que suscitem a construção de novas formas de organização económica-social, capazes de recolocar o ser humano na centralidade da vida societária, lugar ocupado hoje pelo mercado.

Compreender tais processos torna-se, nos dias actuais, não somente uma necessidade social, mas também ética e política. Tendo em vista os processos de financeirização de todas as dimensões da vida, buscar um maior esclarecimento acerca das matrizes económicas ocidentais é um gesto de aprofundamento nos desafios postos na contemporaneidade.

Foi no ano de 2003 que o Banco Mundial e a ONU afirmaram que África tornar-se-ia no grande celeiro que alimentaria o resto do planeta.

A Fundação Mo Ibrahim, num dos seus relatórios destacou que dos 15 países do planeta onde a produção agrícola mais cresceu entre 2000 e 2008 sete são africanos: Angola (13,6%), Guiné (9,9%), Eritreia (9,3%), Moçambique (7,8%),Nigéria (7%), Etiópia (6,8%) e Burquina Fasso (6,2%).

África poder ser o celeiro do mundo. Mas antes têm de ocorrer uma série de mudanças internas, começando por uma gestão mais eficaz dos recursos.

O continente africano possui 60% das terras [a maior extensão do mundo] potencialmente cultiváveis do planeta. Segundo o Anuário Estatístico da FAO (Organização da ONU para Alimentação e Agricultura), 79% dos campos que poderiam ser cultivados no continente estão sem trabalhar. Só são explorados 10% dos 400 milhões de hectares de terra cultivável situados entre o Senegal e a África do Sul. O suficiente, não só para alimentar os africanos como para satisfazer a crescente demanda mundial. E neste lindo, mas sonegado cenário temos Angola.

O potencial é enorme, mas é preciso promovê-lo com políticas de desenvolvimento inovadoras e sustentáveis. É fundamental romper o ciclo da agricultura de subsistência (85% das explorações africanas ocupam menos de dois hectares), investir em infraestrutura que apoie o crescimento do sector (estradas, pontes, represas) e atingir economias de escala.

O continente africano gera por ano 700 milhões de toneladas de produtos agrícolas, que lhe trazem 313 biliões USD, segundo o Banco Mundial. Ou seja, a agricultura representa 15% da sua riqueza.

Importa conscientizarmo-nos da nossa responsabilidade, sabendo que nenhuma preocupação é mais fundamental do que cuidar da única Casa Comum que temos Angola. A vida em África impõe os seus próprios ensinamentos.

Parece uma utopia? Sim, mas necessária se quisermos sobreviver.

Entre opinião, crónicas e ensaios esta é a minha visão.