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Quem ganha e quem perde com o aumento do preço do crude?

Luanda /
12 Jul 2022 / 11:27 H.
Danilo Vieira Dias Soares de Menezes

Considerando dentre muitos factores, a guerra envolvendo a Rússia e a Ucrânia, e atendendo as sanções económicas impostas por determinados países em resultado deste conflito à Rússia, diminuindo assim, a oferta global de Petróleo, Gás e seus derivados, observa-se o aumento do preço do crude, gás e seus refinados, atingindo números não vistos na ultima década, impulsionando, a inflação mundial. No último trimestre, entretanto, o preço do crude manteve-se acima dos USD 100 por barril, dando lugar a seguinte questão: quem ganha e quem perde com o preço do barril nos níveis actuais?

Mundo

Upstream

Beneficiam-se deste aumento contínuo do preço do crude, as empresas produtoras de petróleo, por não ser apenas um momento mais lucrativo, mas também por ser uma circunstância de maior valorização das suas acções nos maiores mercados financeiros do mundo tal como NYSE, Nasdaq, SSE, B3, entre outras, atraindo maior investimento por intermédio dos bancos ou até mesmo investidores. Como resultado, para às empresas petrolíferas, abre-se uma porta para perfuração de novos poços e antigos, que, anteriormente não eram tidos como sendo economicamente atrativos.

Assim, acabam por ter um aumento na sua produção, podendo investir em novos projectos tal como aconteceu com a QatarEnergy, que assinou um acordo de parceria com as empresas TotalEnergies, Conoco Phillips, Exxon Mobil e Shell para a expansão do North Field, sendo até hoje, o maior projecto de gás natural liquefeito (“GNL”) do mundo com um investimento orçado em mais de USD 30 Mil Milhões para esta expansão.

Downstream

Actualmente, as refinarias têm desfrutado de altas margens de lucro em meio a grande demanda e a oferta limitada, apesar de haver uma boa chance das subidas nos preços dos combustíveis terem como consequência a destruição da demanda.

Um dos índices de lucratividade dos derivados de petróleo no mercado actual, decorre da diferença entre o preço de compra do petróleo bruto e o preço de venda dos produtos acabados, como a gasolina e o combustível destilado, produzidos por refinarias a partir do petróleo bruto. Esta diferença, conhecida como crack spread, é um tipo de margem bruta de processamento específico do sector em questão, sendo importante referir que, os crack spreads para diesel e gasolina tiveram uma subida nos primeiros meses de 2022.

Outrossim, em um estudo feito pela Goldman Sachs, estima-se que a demanda por combustíveis e destilados permaneça forte e as margens altas, estando acima das médias históricas em resposta à vários factores, incluindo:

Estoques baixos para ambos os produtos petrolíferos globalmente;

O aumento da demanda de combustível para os níveis que antecedem a pandemia da Covid-19;

A produção de refinaria relativamente baixa de ambos os combustíveis em comparação com os níveis pré-pandemia;

O consumo de combustível de aviação deve acelerar no verão do hemisfério norte com o retorno às viagens internacionais;

Os altos preços do gás natural levarão à troca de “gás para óleo” na Europa e na Ásia, e

Redução das exportações de Refinados da Rússia devido à guerra com a Ucrânia.

Após a invasão à Ucrânia, houve uma redução de compradores de petróleo bruto á Rússia, tendo alguns governos e empresas estrangeiras decidido evitar as exportações de energia provenientes deste país, garantindo a queda de preço. A Índia - segundo maior consumidor de petróleo da Ásia -, entretanto, aproveitando-se desta queda de preços, aumentou as importações de petróleo Russo, tendo em vista o facto de que a aquisição deste produto não pode ser impedida pelo EUA, pelo facto de não haver sanções secundárias aos países que estejam a fazer negócios com a Rússia.

Outrossim, refinarias indianas, no actual contexto político-económico, desfrutam de lucros elevados ao transformar petróleo barato em combustíveis, sendo vendidos no mercado interno e também no mercado de externo para clientes na Europa e nos EUA. Desta forma, os suprimentos russos fazem parte da cesta geral de matérias-primas de petróleo bruto da Índia, juntamente com outras aquisições consideradas de longo prazo provenientes do Oriente Médio e África.

Nos EUA, em resposta a esta subida de preços, as refinarias de petróleo bruto atingiram uma média de 16,3 milhões de barris de petróleo por dia consumidos durante a semana que terminou a 10 de junho de 2022, sendo 67.000 barris por dia a menos do que a média da semana precedente. Assim, entende-se que as refinarias operaram com 93,7% de sua capacidade operacional na segunda semana do mês.

A produção de gasolina, por sua vez, tem aumentado continuamente durante o ultimo mês, com média de 10,0 milhões de barris por dia (1.590 milhões de litros). A produção de combustível destilado também aumentou, com uma média de 5,0 milhões de barris por dia, esperando-se que, as utilizações das refinarias atinjam um nível médio de 96% da sua capacidade para os meses de Junho, Julho e Agosto, de acordo com a EIA.

Todavia, o preço do combustível para o consumidor final esta cada vez mais alto chegando a níveis jamais vistos em certos países, o que acaba por afectar de forma negativa a economia destes países, tendo impacto significativo nos preços dos bens e serviços diversos, sobretudo bens alimentares.

ANGOLA

Upstream

Com o aumento do preço do Petroleo Bruto o país não só ganha com as receitas arrecadadas de forma directa e indireta como consequência das actividades exercidas pela industria petrolífera, como também ganha com o eventual aumento da sua produção a curto prazo, atendendo ao facto de que alguns poços com um determinado preço já são tidos como sendo financeiramente exequíveis. Em contraste, a longo prazo podem serem descobertas novas áreas de desenvolvimento comercialmente viáveis, licitar novos blocos e/ou a possível entrada de novos players no mercado, se continuar com este cenário de preços elevados.

Downstream

Adicionalmente, de acordo com a Global Petrol Prices, Angola ocupa a 7º posição no ranking de 170 países em relação ao preço dos combustíveis, com o preço de USD 0,34 (Kz 149) para o consumidor final onde a média mundial é USD 1,44 (Kz 631.05), sendo considerado o preço de combustível mais barato da SADC e o 3º a nível de África, perdendo apenas para a Líbia e Argélia.

Contudo, por não possuir refinarias com capacidade de satisfazer a demanda interna de mercado, o país ainda tem a necessidade de efectuar a aquisição de combustível em refinarias estrangeiras e, o faz a preços mais elevados quando comparado aos preços de compra anteriores - resultante do aumento do preço do crude, - e revendendo a preços baixos para o consumidor final considerando que o Estado subsidia o preço do combustível.

Isto é, para o Estado angolano, este negócio é desvantajoso, mas, entretanto, mediante esta acção consegue conter ainda que não seja na sua totalidade, a sua inflação, atendendo que, quando o Estado deixa de subvencionar os combustíveis, o preço aumenta, afetando o preço da cesta básica e outros bens e serviços. Em outras latitudes, este aumento é repassado ao consumidor final originando a seguinte pergunta: Será que o País está pronto para deixar de ter o combustível subsidiado?

*AGT - Direcção De Tributação Especial