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O crédito bancário e o lado cíclico da vida

Luanda /
26 Jul 2022 / 12:05 H.
Daniel Sapateiro

Na semana passada escrevi sobre a crise na Europa, sobre a problemática da paridade do Dólar e do Euro, da inflação galopante e bem acima dos limites do Tratado de Maastricht (Países Baixos), que estabelece limites superiores à inflação (de até 2%) e do déficit orçamental (até 3%). Com a inflação entre os 8 e os 10% na Europa e nos Estados Unidos da América, os bancos centrais destes dois blocos democráticos, económicos e financeiros, a Reserva Federal Americana e o Banco Central Europeu têm vindo a aumentar as taxas de juro para conter o «apetite» pelo consumo e pelo endividamento das famílias e das empresas não financeiras. Com o preço do dinheiro mais caro como consequência desta medida, o que se pode perspectivar é um aumento de condições mais penosas para quem precisa de crédito e especialmente para quem já tem crédito que verá as suas prestações mais caras de acordo com o indexante e o prazo que escolheu.

Para este aumento da inflação, causas podem ser apontadas como: guerra na Ucrânia e Rússia, os preços da energia e crise alimentar tendo em conta o fornecimento de óleos alimentares, massas alimentícias e toda a área de bolachas, pastelaria e padaria.

A somar estes factores, devemos somar que as importações europeias tornar-se-ão mais caras com a paridade do Dólar norte-americano com o Euro. Por exemplo, os combustíveis fósseis são «dolarizados», sejam em bruto como refinados, pelo que podemos perceber que haverá contingências nos preços das mercadorias importadas em Dólares e com o mais que provável processo inflacionário importado.

Perante isto, muitos dos que leram o artigo da semana passada e que de forma resumida se apresenta em cima, sendo que alguns leitores entraram em contacto comigo via redes sociais e perguntavam-me até que ponto isto nos afecto ou seja uma lição para nós.

Tendo em conta estes pontos dos meus leitores, considerei fazer uma ponte para esta semana, pois se há lições na vida, algumas delas são estas:

- a economia como a vida, elas são cíclicas;

- devemos aprender com as lições quando estamos mal, quando pensamos que nada dá certo.

A situação económicas de crise do país, que levam que ainda sejamos um país de economia de rendimento baixo, «petro dependente» para a receitas de divisas, receita fiscal e de investimento directo nacional e estrangeiro, inflação sempre acima dos 20% nos últimos anos, dívida pública que já esteve em 136% do PIB em 2020, que tem descido por conta do aumento do Produto Interno Bruto e aqui tem muita influencia o crescimento continuado e sustentado dos preços do petróleo em Londres, desemprego jovem bem acima dos 30%, entre outros factores têm levado à perda do poder de compra das famílias e das sociedades não financeiras. Perante este cenário, o que poderia acontecer com o crédito bancário? – A subida do incumprimento creditício. Até ao final do primeiro trimestre, o incumprimento é medido pelo Banco Nacional de Angola em 1.32 biliões (mais de 3 mil milhões de Dólares).

Se as nossas taxas de juro rondam os 25 – 30% nos créditos, numa base de uma média, sendo que os bancos aplicam as taxas e os spreads (margem de lucro que os bancos aplicam e que cobre entre outros factores o risco do cliente que pretende um crédito), com tendência para baixar por conta da redução da taxa de inflação, que segundo as minhas previsões podem chegar aos 14% no final do ano (inflação acumulada), e por esta medida, o Comité de Política Monetária possa nas suas diversas reuniões bi-mensais poder baixar a taxa nominal do BNA, da actual 20% para 18% numa primeira fase e numa segunda fase, dos 18 para os 16%.

Nota: O BNA tem como meta de inflação 18% e o Executivo 22%.

Poderemos vir a ter a médio prazo (1 a 3 anos) uma taxa de inflação em torno dos 10 ou menos por cento, o que originará uma redução das taxas de juro e menor peso na tesouraria dos agentes económicos com escassez de capital.

Poderemos, igualmente, baixar o crédito mal parado dos tais 1.32 biliões de Kwanzas, que representa 28,3% do total do crédito concedido (6.2 biliões de Kwanzas).

Contudo é suficiente apontar as razões económicas e financeiras para o incumprimento com os bancos? – Não, não é suficiente. Como escrevi em cima e mais à frente apontarei este factor cíclico da vida, a conjectura económica é uma justificação parcial. As relações económicas e falta de ética e de compromisso, aliada à iliteracia financeira, são também causas que geram o incumprimento creditício. A responsabilidade individual dos clientes dos bancos com o cumprimento dos planos financeiros de crédito. Agir proactivamente antes de qualquer incumprimento. Adicionalmente, a má-fé dos clientes que adquiriam créditos sem experiência, sem intenção de investir, sem honestidade para honrar os compromissos com os bancos.

Os bancos, por sua vez, são co-responsáveis pela análise, risco de crédito e acompanhamento ao crédito. Devem aplicar definitivamente a IFRS 9 – Instrumentos Financeiros, Instrutivos do BNA e outras ferramentas de boas práticas de boa gestão bancária para o que diz respeito ao Crédito.

Se, os «ventos» parecem trazer tempos de melhoria nas condições do crédito podendo baixar o índice sobre o incumprimento sobre o total de crédito concedido, que em 2017 (início da legislatura do Presidente da República e Titular do Poder Executivo: João Lourenço), ao primeiro (1º) trimestre de 2022, como se pode analisar na tabela seguinte, também nos devemos preparar para outros «ventos» que não sejam tanto a nosso favor:

Pela terceira vez trago o assunto da vida ser cíclica. Quando estes «ares» favoráveis se dissiparem e eles quase sempre vêm do exterior: Estados Unidos, Europa, China, Japão, com o potencial que temos para produzir bens, mercadorias e ainda podermos exportar por via marítima, área e ferroviária, mas que ainda está aquém do que podemos e devemos fazer para sermos mais auto-sustentáveis, poderemos dizer ou clamar aos céus que temos uma sociedade bancarizada, com educação financeira, com mentalidade para o cumprimento das obrigações? – É um processo que demora anos, gerações, mas sei e sinto que estamos a dar passos largos para uma sociedade mais inclusiva e se a inflação atinge os mais ricos, mais poderosos e industrializados, nós sentiremos mais, mas com certeza estamos a aprender muito e mais depressa que os europeus e americanos, que têm dezenas, centenas de anos de democracia.

*Economista e docente universitário