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Nunca desperdice uma boa crise!

23 Jun 2020 / 11:04 H.
Naiole Cohen

Nunca se ouviu tanto a frase de Winston Churchill “Nunca desperdice uma boa crise”. como nos dias de hoje. Churchill sabia o que dizia pois viveu verdadeiras crises e guerras que o obrigaram a grandes decisões. O ano de 2020 é um ano de decisões. A crise sanitária provocada pelo Covid-19, e no caso de Angola sobrepondo-se à crise económica, colocou a nu as fragilidades do mercado e não deixou duvidas dos problemas multidimensionais do país.

Mais do que uma crise de saúde publica o Covid19, e o contágio para o vírus económico obrigam-nos a olhar para estes elementos da crise como verdadeiramente impulsores para um cenário de guerra. Por um lado, uma guerra invisível (a do vírus Covid19) e por outro lado uma guerra económica. Ambos os vírus têm em comum o facto de serem silenciosos e letais.

Em tempos de guerra a prioridade é a sobrevivência. Para alguns países, os cenários serão disruptivos e dessa forma se confirma o que se apregoa. Que os novos nossos tempos são mesmo voláteis, incertos, complexos e ambíguos (VICA).

Em Angola esta crise pandémica destapou o que já sabíamos, mas não tínhamos coragem de “ver com olhos de ver” ... todas as inconstâncias de uma economia despreparada para enfrentar uma guerra, torna-se ainda mais difícil esta contra o vírus económico, o maior e mais letal de todos os vírus no longo prazo.

Não resta outra saída senão a de ação. A hora é esta! De ação, mas igualmente de reflexão estratégica. Que reposicionamento geoeconómico para Angola? Que vantagens comparativas e competitivas Angola tem para se reerguer dos escombros económicos? O quê que uma economia de guerra precisa?

As crises são aceleradoras de mudança e é com esta característica que se permitem decisões para “não desperdiçar uma boa crise”. Atrevo-me a pensar alto em 4 pilares:

1) Comida! Comida é Agricultura e este sector é o futuro da sustentabilidade de Angola. Não apenas porque significa segurança de Estado, mas porque permite repensar um novo Modelo Economico para Angola. Um modelo com abertura e coragem para mudar a estrutura da Cesta Básica com produtos de produção interna versus de importação, com o repensar da cadeia de valor completa dos produtos de prioridade e finalmente apostar em produtos de exportação. Modelo interno e externo.

2) Pessoas! Pessoas para formar um verdadeiro exercito de trabalho, usando jovens que querem ter uma oportunidade ou “soldados” agora inactivos. Existem tantos braços jovens e fortes para tornar o sector da construção de estradas e agricultura uma realidade.

3) Estradas! Estradas para criar vasos comunicantes entre pessoas, bens e serviços, não apenas para unir produtores e compradores, mas sobretudo para fazer cair os custos, promover as cadeias logísticas e finalmente melhorar a segurança social e de Estado e tornar o acesso mais fácil à cesta básica.

4) Energia Elétrica! Energia Elétrica para fazer diminuir a estrutura de custos das empresas e das famílias e potenciar as ideias dos micro empreendedores e a economia digital.

Estes pilares, “aparentemente simples”, dividem o ónus de implementação com dois para o sector publico (Estradas e Energia Elétrica) e dois para o sector privado (Pessoas e Agricultura).

Este regresso ao básico vai permitir criar as fundações nos factores de produção dos tempos de Adam Smith. Terra, Trabalho (força de trabalho jovem) e Capital. Aqui o nosso Capital não é apenas o suporte financeiro, mas sobretudo a agua e o clima que, nalgumas circunstancias, alavancam para mais do que uma colheita, e potenciam bons retornos e lucro.

Nós estamos em guerra (vírus económico) e numa economia de guerra as soluções têm que ser rápidas e exigem foco no objetivo, exigem colaboração e cooperação. Um dos maiores riscos em tempos de guerra é a armadilha de um líder querer controlar TUDO, decidir TUDO. Compromisso e responsabilização são factores-chave de sucesso para se ganhar uma guerra e para mobilizar liquidez.

Nesta guerra contra o vírus económico a arma de combate é o trabalho e a liquidez. O músculo financeiro de Angola não deve assentar no consumo, mas sim na produção. Porquê? Porque o consumo não produtivo potência compras de produtos importados ao contrário do consumo produtivo que gera valor interno. Autossuficiência alimentar é uma questão de segurança e soberania, tão importante como defender as fronteiras.

“Não se pode desperdiçar uma crise” não é apenas uma questão de potencial de mudança interna. É também um momento para repensar o potencial de reposicionar o país, para recepcionar industrias que pretendem se deslocalizar para regiões ou para produzir para mercados que despertaram para novas necessidades. Por exemplo, o futuro da Europa será com foco em energias limpas, o que significa menos petróleo por um lado, mas com vontade de acesso a mais alimentos biológicos e orgânicos para melhorar as imunidades de uma população cada dia mais envelhecida por outro lado. Esta possibilidade é uma oportunidade única para Angola se reposicionar.

Uma guerra requer mobilização e a mobilização voluntária só acontece quando se acredita e para acreditar é preciso um governance assente em pelo menos quatro pilares, (i) transparência), (ii) prestação de contas, (iii) comprometimento e (iv) comunicação efectiva. O segredo já não é a alma do negócio! A alma de negócio hoje é a cultura de governance e de gestão.

Angola não pode perder a oportunidade desta crise para inovar e estruturalmente fazer uma aposta firme nas pessoas, na agricultura, nas estradas e na energia. Numa guerra quem falha morre e nós não podemos falhar.