Mercado de valores
Tempo - Tutiempo.net

Interrogações sobre empreendedorismo social: ver atrás da curva

Angola /
09 Ago 2019 / 10:10 H.
Benjamim M bakassy

Existem diversas avenidas que levam a que empresas tenham impacto na sociedade, entre elas, está aquilo a que se chama de empreendedorismo social.

Do ponto de vista da ética empresarial, nada nem ninguém pode exigir que empresas – entidades legitimamente comerciais – estabeleçam como seu objectivo principal a geração de valor que não seja primeiramente económico.

Contudo, a partir desse mesmo ponto de vista, as externalidades sociais criadas pela geração de valor económico por parte das empresas devem incluir – sem excepção – o bem-estar de todos os stakeholders.

Ao falarmos de empreendedorismo social, falamos de empresas que emergem a partir de uma “raison d’etre” ou propósito existencial assente na solução de ineficiências de mercado que têm consequências no bem-estar social, ambiental, ou outro, de cariz não primeiramente económico.

Talvez seja útil desmistificar o sentido do conceito de empreendedorismo, mesmo que ao fazê-lo seja adoptado um certo dogmatismo académico, que penso ser útil, quanto mais não seja, para atribuir ao conceito alguma, mesmo que escassa, sustentabilidade, em termos do rigor da sua aplicabilidade.

Assim sendo, empreendedorismo refere-se à primeira fase da emergência organizacional. Emergência organizacional consiste na passagem de ideia a facto e advém da mesma raiz do verbo emergir.

Considera-se que o empreendedorismo pode ser definido como o período de até três anos após a fundação de uma empresa ou negocio, após o qual a empresa não mais está num estado de emergência. Nesse sentido torna-se claro a referida caracterização de empreendedorismo social.

Um factor que tem trazido atenção para organizações que têm características de empreendedorismo social é a confiança que estas empresas têm gerado nos mercados aonde surgem – incluindo por parte de grandes investidores.

A palavra confiança pode ser considerada fundamental no contexto organizacional e profissional. Enquanto conceito podemos pensar na “confiança” de – pelo menos – dois pontos de vista: pessoal (moral) e interpessoal (ético).

Isto é, a confiança enquanto competência ou atributo que um indivíduo tem em si mesmo, sobre a sua própria identidade e propósito; e a confiança enquanto fruto de relações partilhadas com virtudes que geram um estado de ausência de dúvidas sobre os compromissos acordados entre indivíduos ou partes distintas.

Porque será que empresas que surgem para servir propósitos para lá do lucro geram maior confiança e credibilidade nos mercados? Perguntas – complementares – possíveis poderiam ser articuladas das seguintes formas:

1. Se uma empresa é capaz de gerar retorno financeiro e resolver um problema social, é admissível assumir que terá a capacidade de angariar mais clientes porque os mesmos vão preferir ser servidos por uma empresa com essas características quando comparando a possibilidades de serem servidos por outras empresas com produtos substitutos ou concorrentes?;

2. Será que a sociedade contemporânea está mais focada em soluções sustentáveis e os consumidores estão cada vez mais atentos ao impacto que as empresas têm na sociedade?;

3. Com tantos problemas para serem resolvidos, será que uma empresa que consiga resolver algum terá um mercado tão lucrativo que muito rapidamente os investidores esquecerão o problema que está a ser resolvido e pensarão apenas nos lucros que podem ser gerados?;

4. Negócios que resolvem problemas sociais, ambientais, de bem-estar são mais sustentáveis que negócios com outras características?.

Seth Godin, um icónico empreendedor diz o seguinte: “Não procure clientes para seu produto. Encontre produtos para seus clientes.”

É possível que seja esse o segredo do empreendedorismo social?

Benjamim M’Bakassy é professor de Ética Empresarial