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Ética, sonhos, e medo das alturas: apropriação versus expropriação

06 Dez 2019 / 13:57 H.
Benjamim M bakassy

A ética tenta responder a uma pergunta simples para a qual eu não tenho resposta: Qual é a melhor vida que alguém como eu pode viver? E esta pergunta aplica-se às empresas e às pessoas nas empresas.

Será uma vida emotiva, utilitária, virtuosa, relativista, teleológica ou deontológica, a vida ideal? Sem a mínima dúvida que chamar a ética para o centro do palco é chamar a própria excelência humana a ser a protagonista não dos pensamentos mas das acções humanas baseadas em características apenas reservadas aos humanos, para as quais o resto da natureza não tem nem resposta, nem em si mesma essa mesma natureza. A ética é baseadas em escolhas humanas cuja consequência deveria ser algum tipo de felicidade. Muitas vezes é a indefinição ou incoerência entre a felicidade buscada e a felicidade obtida a que se apelida de não-ética. As empresas não são imunes às emoções, utilitarismo, deontologia, teleologia, virtuosidade, ou relativismo. Falar do instinto empreendedor é falar de emoções. Falar da escolha pelo melhor preço é utilitarismo. Falar das regras ou processos é deontologia. Falar das consequências e Stakeholders é teleologia. Falar da mão invisível é relativismo. Falar da excelência é virtuosidade. As empresas são organismos complexos dentro dos quais a ética está em todos os poros. Ninguém, pode pensar que o seu futuro não será o reflexo do seu passado histórico. A nossa história - a da humanidade - é um coincidir de pragas e bênçãos, graças e perdições, feridas e salvações. O fruto de uma árvore tem sempre como raiz a semente, nunca a sua flor. Se não falássemos do ponto de vista dos docentes de ética empresarial, provavelmente diríamos que, a verdadeira ética das empresas é criar valor que - se Deus quiser - terá impacto social.

Mas e África? A nossa África? Quais poderiam ser os problemas africanos, para os quais a dimensão ética poderia ser uma abordagem - das múltiplas possíveis - adequada? Será que tais temas existem? Qual seria o papel da ética no discernimento sobre o fenómeno que entende uma dimensão sul-norte... e ocidente-oriente... fenómenos bastante particulares... Como exposto em Tamoda (obra icónica de Uanhenga Xitu)... A relação ocidente-oriente é baseada na apropriação das características valiosas como seu património cultural, intelectual, e económico. A relação norte-sul é baseada na expropriação das características valiosas como seu património cultural, intelectual, e económico. Expropriação (https://dicionario.priberam.org/Expropriar) (ex·pro·pri·ar |eis| ou |es| - Conjugar (francês exproprier) verbo transitivo Desapossar (alguém) da sua propriedade ou de parte dela, pagando-lhe um preço estipulado.

Apropriação (https://dicionario.priberam.org/Conjugar/apropriar) : a·pro·pri·ar - Conjugar (a- + próprio + -ar) verbo transitivo 1. Tornar próprio (ex.: apropriar bens). 2. Acomodar. 3. Aplicar, atribuir. verbo transitivo e pronominal 4. Tornar ou ser adequado ou conveniente a (ex.: é preciso apropriar o discurso; isto não se apropria à situação). = ADEQUAR verbo pronominal 5. Apossar-se. 6. Tornar seu uma coisa alheia (ex.: apropriou-se de valores e será julgado por isso). = APODERAR-SE.

Infelizmente pode assumir-se de livre e espontânea vontade um estado cuja realidade é ausente da sua própria existência histórica, e consequentemente ausentar-se da escolha de ser fruto de uma historicidade cujo devir não é fruto da liberdade mas da sua ausência ética. O sonho africano contemporâneo é transformar a relação norte-sul num ocidenteoriente, mas há muito caminho – eticamente largo – por percorrer. O oriente sempre demonstrou uma visão muito clara sobre os sacrifícios necessários e as cedências eticamente impossíveis. O sonho do oriente de ser o que sempre foi (uma potência intelectual e económica) está muito mais próximo de ser uma realidade do que a vertigem africana. Olhar de baixo para cima também causa medo das alturas. É sempre mais fácil - talvez menos ético – acreditar que não é possível. O sonho NÃO PASSA de ser uma verdade historicamente ética. Não existe nada de contraditório ou pejorativo no termo “sonhar” ou “ética” a não ser para quem algo de pejorativo existe. O mundo está a viver um processo de fusão de ideias, negócios, pensamentos, tecnologias. O século XXI é o mais ético de sempre, e contudo está ainda a mundos de distância do desejável. Mas sonhemos! Só os pássaros não têm medo das alturas.