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Era uma vez uma classe média!

20 Jul 2020 / 15:09 H.
Naiole Cohen

A riqueza de uma nação mede-se pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes” - Adam Smith.

Numa economia de fantasia, podemos criar as classes sociais que quisermos! A história económica é fértil em exemplos da tentativa de se criarem classes sociais. Uma primeira fantasia foi criar uma economia com “uma classe”.

A tentativa foi séria, mas só quando morreram milhões de pessoas à fome e o clientelismo e a pobreza cresceram, se percebeu que não podia ser por aí.

Até hoje ainda se anda a remendar a tentativa... A outra fantasia foi criar um modelo de duas classes: “Nós e Eles”.

Esse modelo é ainda mais perigoso, pois, como diz o geógrafo especializado em estudos de urbanização nos países em desenvolvimento, Milton Almeida dos Santos, “Nós e Eles” resulta realmente em duas classes ... “a dos que não comem e as dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem”.

Não estamos em tempos de fantasias, mas sim perante uma realidade em que está em perigo uma classe de promotores da estabilidade, do empreendedorismo e da segurança dos países, isto é, a classe média.

O conceito de classe média, discutido há 200 anos, tem as suas primeiras referências no século XVIII (vide paper de 1745 “Scheme to prevent running Irish Wools to France”). Esta classe cresceu ao longo do processo de consolidação do capita-lismo e uma coisa foi ficando clara: a sua importância na segurança e crescimento económico de uma nação. A sua força reflecte-se directamente na prosperidade e cultura do ambiente democrático das nações e, portanto, não há tempo para fantasias quando a realidade requer prosperidade e estabilidade.

A ausência de uma política em Angola para salvar a classe média é, no mínimo, assustadora. Desde 2016 que o choque do petróleo iniciou uma cascata de acontecimentos negativos (desvalorização, inflação, mais desvalorização, menos insumos, menos produção interna, mais despedimentos, menos poder de compra, mais IVA, menos, menos poder de compra) e agora a machadada final, o IRT em cima dos magros salários da “tal classe média” Ufff! Assim não!

O perigo é real! Matar, matar, matar a classe média. Cada dia mais pobre, cada dia mais vulnerável, sobretudo se trabalhar por conta própria. Estes, principalmente, estão no limiar da pobreza.

O Relatório do INE 2018/2019, sobre as Receitas e Despesas, não deixa dúvidas.

Qualquer política monetária restritiva ou politica fiscal de sobrecarga sobre a já magra classe média, vai continuar a potenciar uma cascata de efeitos multiplicadores negativos, como uma maior contracção da despesa doméstica e, consequentemente, menos consumo, encerramento de pequenas lojas, restaurantes, cabeleireiros, dentistas, etc. .

Igualmente, menos recursos para alimentar empregadas domésticas, motoristas etc., outro perfil de despedimentos que normalmente tem um agregado alto.

Um perigo social e um desastre para os micro e nano empreendedores!

Mesmo para aqueles que têm um salário fixo, não é possível aguentar um abanão do IRT em cima de uma perda acumulada de mais 50% do poder de compra, devido à inflação agravada, ao encarecimento dos produtos por via da desvalorização, por um lado, e pelo apertão de 14% do IVA, por outro, em cada transacção.

Salvem a classe média! Paul Krugman, o prémio Nobel de Economia de 2008, avisou em 2019 que o poder nocivo dos 0,01% mais ricos constrói silenciosamente uma teia de benefícios que vão até à “compra da influência politica” e das políticas públicas.

O fenómeno não é novo e alastra-se por muitas latitudes. O perigo é absoluto quando acontece em regiões em que não há equilíbrios e as instituições são frágeis. O perigo dos 0,01% muitíssimo ricos é real, porque o seu poder é real.

Angola não pode matar, matar, matar a classe média, e este é o momento de se avançar sem medo para uma política expansionista, à seme-lhança de outras geografias.

A política de subtracção de liquidez, uma cascata iniciada em 2016, já fez o seu trabalho. Este é o momento de mimar, de encorajar quem tem a porta aberta. Estes guerreiros do dia-a-dia não podem ser escravos de um Estado obeso e sorvedor de recursos.

Chega de falar de pobreza! Mudemos a narrativa para a criação de ambiente de prosperidade e sem medo. Está na altura de se “abrir os cordões à bolsa”!

Não há nada a perder, comecemos por pagar os atrasados internos da dívida publica e a promover o microcrédito, que é um bom inicio.

Canalizemos recursos para projectos produtivos com efeitos multiplicadores na empregabilidade e na promoção da livre iniciativa que a classe média agradece e agradecerá sempre, pois é com ela que se fazem as nações.