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E se de repente acordasse e o dinheiro físico desparecesse...

Luanda /
21 Set 2022 / 14:33 H.
Daniel Sapateiro

O futuro sem dinheiro ou “cashless” é a tendência em todo o mundo... e sendo este o meu sexto artigo sobre moedas digitais, sempre neste mesmo jornal, há um culminar ou uma consumação com este artigo sobre todos os cinco primeiros.

Uma realidade: as notas e moedas físicas (metálicas) são cada vez menos usadas, no entanto, pobreza e desigualdade social impedem avanço e hegemonia de uso das tecnologias, mas a tendência é uma verdade, mas com velocidades diferentes, como quase sempre, entre o mundo desenvolvido e industrializado e a maioria dos países africanos, em especial, os países da África subsaariana, como são Angola e Moçambique.

Imaginemos que você acabou de terminar sua refeição num restaurante, sozinho. No momento de pagar, é informado pelo empregado de mesa que não recebem mais pagamentos em dinheiro vivo “cash” e ou pagamentos em Kwanzas (moeda nacional de Angola), mesmo via TPA (Terminal de Pagamento Automático), como reagiria?

O restaurante só aceita pagamentos em moeda digital que tem a possibilidade de fazer via telemóvel, mas entretanto ficou sem saldo e dados no telemóvel ou ficou sem bateria, e a hora de almoço está a terminar e não tem tempo para carregar a bateria do telemóvel.

Enquanto lê este artigo, no seu interior, respondeu que pegaria o dinheiro de emergência que deixa guardado na carteira ou andaria até uma agência bancária para levantar a quantia, você tem sorte de viver numa sociedade em que ainda existem cédulas (cash) em circulação. Em países como o Canadá, Noruega e Suécia, por exemplo, isso já não seria tão possível.

Nesses países, a “cashless society” já é quase uma realidade, ou seja, quase não existe mais dinheiro vivo em circulação.

Com o uso de cartões, carregar moedas ou notas é um hábito que começou a desaparecer entre os jovens, o que mostra que a próxima geração já está familiarizada com a nova forma de consumir. As pessoas das gerações nascidas depois do ano de 1980, 1990 estão mentalizadas para as novas tecnologias e tal coloca-se mais quando se pensa nas crianças e jovens nascidos no ano de 2000 em diante. O uso de dinheiro e novas tecnologias nas transacções comerciais e esta situação é de não retorno e mais será com as gerações nascidas em 2010 em diante. Os telemóveis fazem parte dos brinquedos das crianças.

As moedas digitais podem ser consideradas como um acelerador da economia mundial, local numa lógica de “aldeia global”, mas no mundo virtual. Se antes a pessoa que andaria sem dinheiro representaria a perda de uma venda, hoje esse dinheiro digitalizado já está em circulação. Além do mais, digitalização integral da moeda e o fim da circulação do papel também beneficiaria as instituições bancárias comerciais e dos bancos centrais, em vários milhares de milhões de Dólares norte-americanos, poupanças com segurança, movimentação e estruturas físicas para esse dinheiro ficar mais seguro, embora tenha que haver gastos ou investimentos com segurança digital.

Se de repente deixasse de haver dinheiro, tal realidade não vai acontecer nas próximas décadas nos países africanos de renda baixa e média, no qual, no primeiro escalão, está Angola e Moçambique. A pobreza em larga escala, a economia informal que é sedenta de dinheiro em mãos, a baixa educação financeira, são três entre várias razões para haver um adiar desta transformação financeira e comercial que começará no mundo desenvolvido ou industrializado.

Acredito que o dinheiro físico não vai deixar de existir, pelo menos em Angola e nas próximas décadas e aqui aponto outros factores importantes para essa avaliação, entre eles as pequenas transacções rotineiramente feitas em dinheiro para fugir de impostos e fiscalização. O dinheiro físico não deixa em princípio rasto, além de haver pessoas que preferem receber em espécie para não pagar a tributação referente a transacções bancárias, há também actividades ilegais que se prevalecem do papel irrastreável (em rasto).

Quanto à troca do dinheiro físico por electrónico, se tal vai reduzir os custos de operação do dinheiro, mas pode-se ponderar sobre o abismo social se expande ainda mais ou não. Ter dinheiro virtual é muito mais do que ter um telemóvel para aceder ao internet banking, por exemplo, mas também é preciso conhecer as funções e saber como gerir o seu dinheiro através de aplicativos para realizar pagamentos digitais.

Para terminar o artigo e para que todos saibamos das vantagens e das desvantagens do mundo sem dinheiro.

Quanto aos benefícios posso apontar como:

Menor incidência de crimes porque não há dinheiro tangível para roubar;

Menos lavagem de dinheiro porque sempre há um rasto no uso de papel-moeda;

Menos tempo e custos associados ao manuseio do papel-moeda, além de armazená-lo e depositá-lo;

Troca de moeda mais fácil ao viajar internacionalmente

Referindo-me às desvantagens, devo selecionar os seguintes pontos:

Expõe suas informações pessoais a uma possível violação de dados

Se os hackers drenarem sua conta bancária, você não terá uma fonte alternativa de dinheiro

Problemas tecnológicos podem deixar você sem acesso ao seu dinheiro

Os pobres e aqueles sem contas bancárias terão dificuldade em pagar e receber pagamentos

Alguns podem achar mais difícil controlar os gastos quando não vêem dinheiro físico deixando suas mãos

Os bancos podem começar a cobrar taxas para compensar possíveis taxas de juros negativas

Uma sociedade sem dinheiro - cashless society tem aliados várias forças poderosas estão por trás da mudança para um mundo sem dinheiro, incluindo governos e grandes empresas de serviços financeiros. Até mesmo os críticos do sistema financeiro dominante e das moedas emitidas pelo governo contribuem para a eliminação do dinheiro. O futuro é já amanhã e todos somos chamados. O aumento de plataformas digitais de pagamentos e de transferência de moedas consignadas pelos bancos centrais, mais as criptomoedas que tenho abordado há cinco semanas consecutivas, é o processo deste futuro que abordo e se de repente acordasse e o dinheiro físico desparecesse...